REVISAR O BÁSICO
É ano de eleição e, num país tão polarizado, você encontrará, a todo momento, referências à direita, ao centro, à esquerda e aos extremos. Porém, há jornalista que não sabe o básico, ou, pior, mente sobre o básico. Gente que não lê, não estuda, nunca estudou, mas ocupa espaços em veículos de comunicação classificando políticos sem o menor fundamento teórico, histórico ou factual.
Por isso, vou tentar explicar o que representa cada espectro político, da extrema-esquerda à extrema-direita.
EXTREMA-ESQUERDA
A extrema-esquerda reúne correntes que defendem uma ruptura profunda com o capitalismo e a socialização dos principais meios de produção. Diferentemente da esquerda democrática, essas correntes não se restringem às instituições da democracia liberal. Algumas defendem a tomada revolucionária do poder e a construção de um Estado revolucionário; outras, como o anarquismo, vislumbram a própria abolição do Estado.
Seu objetivo não é fazer com que todos possuam exatamente os mesmos bens, como afirma uma caricatura bastante difundida, mas superar as divisões de classe e promover uma igualdade material radical.
Não existe hoje, no Brasil, nenhuma liderança de extrema-esquerda com força eleitoral relevante ou representação no Congresso Nacional. O PSTU, de orientação trotskista e sem representação parlamentar no Congresso, é um dos exemplos mais claros desse campo. Na ciência política, a extrema-esquerda abriga correntes como o comunismo revolucionário, o marxismo-leninismo, o trotskismo e o anarquismo.
ESQUERDA
Um político de esquerda democrática defende, na economia, maior intervenção estatal, serviços públicos robustos e o fortalecimento do setor público. Propõe mudanças mais profundas na distribuição da renda, da propriedade e do poder econômico, buscando reduzir as desigualdades por meios democráticos, com eleições livres e plurais.
Nos costumes, tende a assumir posições progressistas, embora isso não seja automático. Esse político se aproxima daquilo que a literatura política chama de socialismo democrático. Um dos principais exemplos brasileiros é Guilherme Boulos, do PSOL, atual ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República.
CENTRO-ESQUERDA
Um político de centro-esquerda aceita o capitalismo e a economia de mercado, mas defende que sejam regulados pelo Estado. Também apoia a tributação progressiva como instrumento de redução das desigualdades, serviços públicos fortalecidos, valorização dos sindicatos e ampla proteção social.
Atua dentro da democracia representativa e busca promover mudanças de maneira reformista. Nos costumes, geralmente é progressista, mas pode adotar posições conservadoras em determinadas pautas.
O político brasileiro de maior expressão nesse campo é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que governa conciliando interesses do empresariado e de partidos de centro, preservando a economia de mercado e combinando um Estado forte com políticas distributivas. É o campo que a ciência política geralmente associa à social-democracia.
CENTRO
Já expliquei aqui diversas vezes que o Centrão fisiológico brasileiro, apesar do nome, não representa o centro como corrente ideológica. Trata-se de um bloco parlamentar heterogêneo, formado em torno do acesso ao governo, a cargos e a recursos públicos, reunindo principalmente partidos de centro e de direita.
Um político de centro defende soluções graduais e negociadas, combina posições dos dois lados e pode apoiar maior ou menor intervenção do Estado conforme cada situação, sem seguir necessariamente um dogma. Em tese, busca equilibrar igualdade e liberdade e atua no sentido da conciliação entre os interesses conflitantes da sociedade.
A ex-ministra, ex-senadora e atual candidata ao Senado por São Paulo Simone Tebet (PSB) pode ser situada próxima desse campo. Ela defende as instituições, a combinação de responsabilidade fiscal com políticas sociais e mantém posições moderadas nos costumes.
CENTRO-DIREITA
O político de centro-direita defende a economia de mercado, a responsabilidade fiscal e a propriedade privada, mas aceita algum grau de regulação e políticas sociais voltadas para a redução das desigualdades. Seu modelo de Estado prevê uma intervenção moderada na economia.
Nos costumes, pode ser liberal ou moderadamente conservador. Correntes como o liberalismo clássico, o liberal-conservadorismo e a democracia cristã podem ocupar esse espectro, dependendo do contexto.
Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, talvez seja hoje um dos principais representantes desse campo no Brasil. Considerando especificamente o liberalismo clássico (liberal na economia e também nos costumes), podemos apontar o fundador do Novo, João Amoêdo, embora o partido tenha se deslocado para uma direita mais conservadora.
DIREITA
O político da direita democrática tende a defender um liberalismo econômico mais forte, com ampla proteção à propriedade privada, menor tributação, menos regulação do mercado, privatizações e maior controle dos gastos públicos. Também sustenta um discurso de eficiência e responsabilidade fiscal, inclusive em relação aos investimentos sociais.
Nos costumes, geralmente é conservador, embora isso não se aplique da mesma maneira a todas as correntes de direita. Uma liderança que se encaixa majoritariamente nesse perfil é o ex-governador de Minas Gerais e atual candidato à Presidência da República Romeu Zema (Novo).
EXTREMA-DIREITA
Por último, a extrema-direita combina nacionalismo, autoritarismo, culto à ordem e rejeição ao pluralismo político. Defende um Estado forte na segurança, no controle das fronteiras e na proteção de uma determinada identidade nacional.
Na economia, pode ser bastante contraditória: dependendo das circunstâncias, adota tanto a defesa da liberdade econômica quase absoluta quanto o protecionismo nacional radical, como tem feito Donald Trump nos Estados Unidos.
É radicalmente conservadora nos costumes, hostil aos direitos das minorias e aos mecanismos de igualdade e proteção social. Também exalta hierarquias, a concentração de poder e soluções autoritárias. Participa de eleições, mas tende a contestar a legitimidade do processo quando é derrotada, atacar as instituições de controle e tentar submeter a democracia aos interesses de seu líder.
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) reúne praticamente todas essas características e é um dos principais representantes contemporâneos da extrema-direita mundial.
POLARIZAÇÃO
Portanto, a polarização entre Lula e Jair Bolsonaro é política, eleitoral e também ideológica, mas não é simétrica. Para existir polarização ideológica, não é necessário que os dois lados estejam em extremos equivalentes.
Lula é mais bem classificado como um político de centro-esquerda e, historicamente, atuou mais próximo do centro do que parte das lideranças do próprio PT, especialmente na condução da economia e na formação de alianças.
Jair Bolsonaro, por sua vez, consolidou-se na extrema-direita ao longo de toda a sua trajetória política. Defendeu abertamente a ditadura militar de 1964 a 1985, pregou em diferentes momentos uma intervenção militar contra a democracia restabelecida, atacou o sistema eleitoral e as instituições.
Foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal e cumpre pena por liderar a trama golpista destinada a mantê-lo no poder depois da derrota nas eleições de 2022.
Que este guia sirva para analisarmos melhor os diferentes campos políticos durante a campanha em curso.
FALE COM A COLUNA
Para receber esta coluna em primeira mão, entre para a nossa lista de transmissão.
📲 Salve o número (38) 99865-5654 e envie uma mensagem solicitando sua inscrição.
Acompanhe também pelo Instagram: @pecealmeidajunior.
Compartilhe: