A cúpula do PL mineiro se reuniu com Flávio Bolsonaro nesta semana para discutir a tática do partido em Minas, mas nenhuma decisão foi tomada. Cada dia que passa o cenário nacional e estadual para as eleições vai se desenhando lentamente… A passos de tartaruga, bem típico do “jeito mineiro de se fazer política”. Tudo indica que o PL lançará candidato próprio ao governo de Minas com o deputado Sávio como candidato ao Senado. Neste acordo o senador Cleitinho apoiaria o candidato do PL ao governo de Minas em detrimento do atual governador Mateus Simões. Esta decisão reflete o cenário nacional de se montar um palanque forte em Minas para o candidato Flávio Bolsonaro. Lembramos que o governador Simões apoiará o ex-governador Romeu Zema (Novo) para a Presidência no primeiro turno.
A propósito, Zema tem viajado pelo Brasil para se apresentar ao eleitorado, mas, a poucos meses do pleito, enfrenta um problema que dificulta o crescimento de sua candidatura: o desempenho nas pesquisas de primeiro turno em Minas Gerais, Estado que governou nos últimos sete anos e segundo maior colégio eleitoral do país.
De acordo com pesquisa Genial/Quaest, ele tem 11% das intenções de voto entre os mineiros no primeiro turno presidencial, distante dos 27% do senador Flávio Bolsonaro (PL) e dos 32% registrados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A situação contrasta com a de Ronaldo Caiado (PSD), o outro presidenciável que deixou a gestão estadual para tentar o Palácio do Planalto. Em Goiás, Caiado tem 31%, ganhando de Lula com 20%, e no limite da margem de erro de três pontos percentuais em relação a Flávio, que tem 25%.
CEO da Quaest, o cientista político Felipe Nunes, avalia que a “baixa largada” em Minas hoje é um dos principais calcanhares de Aquiles do pré-candidato do Novo, mas que isso não inviabiliza necessariamente a candidatura. No entanto, ele alerta: “Para uma candidatura que tenta se apresentar como alternativa nacional, é muito difícil não demonstrar força expressiva no próprio Estado”.

O ex-governador Romeu Zema precisa estar mais bem posicionado nas pesquisas eleitorais em Minas, caso queira que sua candidatura à presidência da República seja consolidada
O cientista político aponta que a dificuldade de Zema em Minas é uma combinação de três fatores. O primeiro é que a aprovação de seu governo não se converte automaticamente em voto. O ex-governador deixou o cargo em março com o índice de aprovação em queda, mas ainda em 52%. Os outros dois fatores são o desgaste de fim de ciclo e a profunda polarização nacional.
Em uma simulação de segundo turno da Genial/Quaest, Zema aparece com 38%, numericamente à frente de Lula, que tem 37%. Isso indica que o problema dele não é apenas rejeição local. É também dificuldade de se posicionar no primeiro turno, espremido pela polarização Lula versus Flávio.
Um caminho para compensar esse cenário seria se viabilizar como uma alternativa nacional. Aqui, no entanto, a pré-campanha de Zema esbarra em outro obstáculo: o desconhecimento do eleitorado. No Nordeste, mais de 70% dos eleitores na Bahia, em Pernambuco e no Ceará responderam à Quaest que não conhecem o mineiro, índice que é de 56% em São Paulo, 60% no Rio de Janeiro, 61% no Paraná e 64% no Rio Grande do Sul.
O foco de Zema, neste momento, é justamente se tornar mais conhecido. Além das viagens, que por enquanto estão concentradas no Sul e Sudeste, ele tem se esforçado para viralizar nas redes sociais e subiu o tom das críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Zema conseguiu ficar em evidência no debate eleitoral e nas redes sociais nas últimas semanas, especialmente após a série de vídeos sobre os “intocáveis” e a discussão pública com o ministro do STF, Gilmar Mendes. Até o momento, porém, o protagonismo não se traduziu no crescimento das intenções de voto nas pesquisas – ele tem 3% na última Genial/Quaest e 3,1% na Atlas/Bloomberg.
Romeu Zema também enfrenta um cenário adverso para eleger seu sucessor, seu antigo vice e agora governador Mateus Simões (PSD), para o Palácio Tiradentes. Assim como o padrinho, Simões ainda não deslanchou nas pesquisas – varia de 3% a 5%, a depender do cenário testado pela Genial/Quaest.
O embate com Gilmar diminuiu a pressão no Novo para que Zema fosse vice de Flávio. A pressão externa, contudo, permanece. Na última semana, o presidente do PL em Minas, Domingos Sávio, condicionou o apoio do partido a Simões à desistência de Zema da disputa presidencial. Caso contrário, ele trabalha com duas alternativas: apoiar o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), que lidera a pesquisa Genial/Quaest com 30% ou mais das intenções de voto, ou lançar candidato próprio – o mais cotado é Flávio Roscoe, ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg). Tudo isto a passo de tartaruga…
Gustavo Mameluque. Jornalista. Especialista em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro. Correspondente do L’ Osservatore Romano para o Brasil.
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