Há pessoas que atravessam o tempo. Outras, mais raras, parecem caminhar ao lado dele — sem pressa, sem medo, quase em cumplicidade. É assim que vejo Lola Chaves.
Sentada diante de mim, lúcida, firme na memória e leve no riso, ela não carrega o peso dos anos. Ao contrário: parece ter feito deles matéria-prima para uma vida bem vivida. Mais de nove décadas não lhe roubaram a curiosidade, nem o prazer de contar histórias, nem a delicadeza de quem ainda se encanta com o mundo.
Lola — ou Maria de Lourdes Chaves, como foi registrada — é dessas mulheres que transformam o próprio nome em identidade afetiva. O apelido nascido na infância, quando a língua ainda tropeçava nas sílabas difíceis, acabou por traduzir melhor quem ela é: próxima, simples, acessível. Uma presença que acolhe.
Ao ouvir suas lembranças, não escuto apenas uma biografia. Escuto também o retrato de uma cidade que já não existe da mesma forma. A Rua Doutor Veloso, hoje tomada pelo movimento do comércio, já foi território de casas, vizinhos próximos e portas abertas. Havia tempo para brincar na chuva, para cultivar amizades sinceras, para viver uma rotina em que as pessoas se reconheciam umas nas outras.
Há, em suas palavras, uma nostalgia que não pesa — ela ilumina. Porque não se trata de lamentar o que se foi, mas de valorizar o que permaneceu dentro dela: a memória das relações humanas, a música, a fé, as pequenas celebrações da vida cotidiana.
Talvez por isso sua história não se encaixe em expectativas comuns. Casou-se aos 81 anos com Theo Azevedo, quando muitos já se recolhem. Viveu um amor maduro, intenso à sua maneira, provando que o tempo não determina quando a vida deve acontecer. Ao contrário: a vida, quando bem vivida, encontra seus próprios momentos.
E aqui reside algo que me toca profundamente. Em um mundo que insiste em apressar tudo — inclusive o envelhecer —, Lola desafia silenciosamente essa lógica. Ela não se apressa. Não se lamenta. Não se define pelo que perdeu, mas pelo que construiu e ainda constrói.
Sua lucidez não é apenas cognitiva; é existencial. Ela sabe o valor das coisas simples: uma festa em casa, uma música cantada em coro, a lembrança de uma mãe paciente, o talento herdado de um pai criativo. Sabe, sobretudo, que viver é um exercício contínuo de presença.
Há, em seu olhar, algo que não se mede em anos: uma espécie de permanência. Como se o tempo, em vez de esgotá-la, tivesse aprendido a respeitá-la.
Ao final da entrevista, fiquei com a sensação de que Lola não vive “apesar” da idade. Ela vive com a idade — e talvez por causa dela. Como quem compreendeu, com rara sabedoria, que o segredo não está em quantos anos se acumulam, mas em como se atravessam os dias.
E, se me permitem uma confissão pessoal, saí dali com uma certeza serena: há vidas que não se contam apenas em décadas. Há vidas que florescem — continuamente — mesmo quando o calendário insiste em lembrar o contrário.
Lola Chaves é uma dessas flores. E, ao que tudo indica, ainda não pensa em desabrochar pela última vez.
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Texto: JORNALISTA PAULA PEREIRA
ENTREVISTA | LOLA CHAVES: Memórias de um Tempo em que a Vida Era Mais Próxima
Há histórias que não se limitam ao relato de uma vida — elas guardam, em cada lembrança, fragmentos de uma cidade, de costumes e de um tempo que insiste em sobreviver na memória. Assim é a trajetória de Lola Chaves, nascida Maria de Lourdes, mas eternizada pelo apelido que surgiu ainda na infância e a acompanhou por toda a vida.
Com mais de nove décadas de experiências, ela revisita, com lucidez e leveza, uma Montes Claros que já não existe da mesma forma: ruas de casas abertas, vizinhos que eram como família, festas embaladas por serestas e uma convivência marcada pela simplicidade e pelo afeto.
Entre recordações da infância, histórias familiares, a forte influência dos pais e uma vida marcada pela música e pelas relações humanas, Lola também surpreende ao revelar escolhas pouco convencionais — como o casamento vivido na maturidade, aos 81 anos, reafirmando que o tempo nunca foi obstáculo para quem sabe viver com intensidade.
Nesta entrevista, Lola Chaves compartilha memórias, sentimentos e reflexões que atravessam gerações, revelando que, mais do que o passar dos anos, é a forma de viver que dá sentido à existência.
PAULA PEREIRA: Para começarmos, a senhora pode dizer seu nome completo?
LOLA CHAVES: Fui registrada como Maria de Lourdes Chaves. Meu pai era Chaves e minha mãe Figueiredo.
PAULA PEREIRA: E hoje a senhora é conhecida como Lola Chaves, certo?
LOLA CHAVES: Isso. Esse apelido surgiu na infância, porque eu não conseguia falar “Maria de Lourdes” direito. Eu falava “Lola”, e acabou ficando.
PAULA PEREIRA: Qual o nome dos seus pais?
LOLA CHAVES: Meu pai se chamava João Chaves e minha mãe, Maria das Mercês Figueiredo Chaves.
PAULA PEREIRA: A senhora nasceu em Montes Claros?
LOLA CHAVES: Não. Nasci em Bocaiúva. Meu pai morou lá por um tempo, mas eu vim ainda muito pequena para Montes Claros. Fui criada aqui, me casei aqui, então considero Montes Claros minha terra do coração.
PAULA PEREIRA: Como era Montes Claros naquela época?
LOLA CHAVES: Era bem diferente. Eu fui criada na Rua Doutor Veloso, onde hoje tem cartório. Naquele tempo era só casa, só residência. Depois que construíram prédios e comércios, a rua foi se movimentando.
PAULA PEREIRA: E como foi sua infância?
LOLA CHAVES: Foi muito boa. Eu brincava como toda criança. Na época chovia mais, a gente brincava na chuva. Tinha muitos amigos e uma convivência muito próxima com os vizinhos. Antigamente os vizinhos eram como família.
Também participei muito das atividades da igreja, como a coroação de Nossa Senhora. Eu me vestia de anjo e cantava músicas, inclusive algumas compostas pelo meu pai.
PAULA PEREIRA: Como era a relação entre seus pais e os filhos naquela época?
LOLA CHAVES: Meu pai era mais fechado, um pouco antissocial, não gostava muito de sair. Já minha mãe era uma santa, muito paciente e humilde. Todo mundo admirava muito ela, inclusive padres da época. Ela tinha uma paciência enorme com meu pai.
PAULA PEREIRA: E sobre seu pai, ele teve alguma atuação profissional marcante?
LOLA CHAVES: Ele era muito inteligente. Chegou a atuar como advogado, mesmo sem formação, antes da criação da OAB. Depois disso, não pôde mais exercer. Mas era muito respeitado.
PAULA PEREIRA: A senhora mencionou festas. Como eram naquela época?
LOLA CHAVES: As festas eram muito animadas. Aconteciam no Automóvel Clube e também nas casas. Tinha dança, música ao vivo, serenatas. Antes das bandas, havia serestas com instrumentos como bandolim e violão. Eu mesma organizei o primeiro baile de debutantes de Montes Claros no clube.
PAULA PEREIRA: A senhora teve muitos irmãos?
LOLA CHAVES: Éramos sete ao todo: quatro homens e três mulheres. Hoje, infelizmente, quase todos já faleceram.
PAULA PEREIRA: A senhora se casou?
LOLA CHAVES: Sim, mas bem tarde. Casei aos 81 anos. Foi um encontro muito especial. Ficamos juntos por 11 anos. Ele era músico, tocava viola, escrevia e gostava muito de arte, como eu.
PAULA PEREIRA: E como foi essa fase?
LOLA CHAVES: Foi muito boa. Apesar de algumas críticas da família no começo, ele foi um companheiro excelente. Infelizmente, ele faleceu em maio de 2024, após problemas de saúde.
PAULA PEREIRA: A senhora sempre teve ligação com música e cultura, não é?
LOLA CHAVES: Sim, isso veio muito do meu pai. Tenho irmãs que também eram muito talentosas: uma tocava piano e outra escrevia, cantava e chegou a publicar livro.
PAULA PEREIRA: Para finalizar, o que a senhora guarda com mais carinho daquela época?
LOLA CHAVES: A convivência com as pessoas, as amizades verdadeiras, as festas simples e cheias de alegria, e a presença da música na vida da gente. Era tudo mais próximo, mais humano.
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