DECEMBER 9, 2022

Humanos e Divinos

“O trabalho dignifica o homem”, máxima confirmada pelo Concílio Vaticano II e pelo Papa João XXIII

Vivemos num momento de rápidas e profundas mudanças no trabalho, na sociedade, na cultura e na vida das pessoas, com grandes implicações para a sociedade como um todo. A realidade da educação a distância e do home-office chegou de forma avassaladora em função do distanciamento e isolamento social por conta da pandemia da covid-19. O home-office já era uma tendência, mesmo antes da pandemia.

Se tirarmos uma fotografia do mundo de hoje, ela apareceria colorida, exuberante e, ao mesmo tempo, preto & branca e desbotada, sem brilho e quase sem vida. Uma foto com múltiplas imagens se encontrando e desencontrando, cheia de contradições e ligações. A realidade atual é vista conforme a posição que a pessoa ocupa na sociedade e sua consciência da realidade. Mas todos concordamos com a máxima evangélica de que “o trabalho dignifica o homem”. Máxima confirmada pelo Concílio Vaticano II e pelo Papa João XXIII.

 

 

As transformações atuais precisam ser vistas sob duas dimensões. Vivemos atualmente um processo que acentua a exclusão e a precarização do trabalho, ou seja, a forma injusta como a riqueza é distribuída. É preciso, então, entender as transformações no mundo do trabalho a partir de seus efeitos perversos sobre as pessoas, especialmente daquelas que dependem do trabalho para sobreviver, como as diaristas e recebedores do salário-mínimo. Nesta perspectiva, devemos ver além do retrato, isto é, avançar na compreensão do que está causando as mais recentes transformações. Por outro lado, é preciso enxergar as novas possibilidades que o atual processo de transformação traz para as organizações sociais e, a partir delas, construir novas perspectivas na nossa luta por um mundo mais irmão. A própria palavra crise pode significar um momento de desestruturação, mas também de ruptura para a construção de algo novo, onde não só se aprofunda a destruição de uma determinada situação, mas se criam novas possibilidades. É preciso reconhecer que as mudanças, as guerras e as pandemias trazem muitas incertezas, destruindo e recriando os elementos que organizam uma sociedade, assim como acontece na vida das pessoas.

No Brasil, aproximadamente 40 milhões de “invisíveis” não têm carteira assinada ou emprego fixo, vivem à margem do Sistema Produção-distribuição-consumo. Se o emprego assalariado perde importância na sociedade, é possível produzir muito mais riqueza com menos trabalho; ao mesmo tempo, há muito trabalho quando pensamos nas necessidades não atendidas de grande parte das pessoas. É um absurdo termos tanta gente sem trabalho no Brasil. Um país que tem ainda muitas carências sociais. Por que não gerar empregos construindo casas populares para atender os que não têm moradia ou moram precariamente? Lembrando que a construção civil é indutora de desenvolvimento econômico e geradora de muitas oportunidades na cadeia produtiva. Por que não investir em saneamento básico, educação, saúde, conserto de estradas, energias alternativas, como a fotovoltaica, que empregam muita gente?

Assim, o enfrentamento do problema do desemprego passa pela defesa de um novo modelo de desenvolvimento, pensado por Celso Furtado, centrado na pessoa humana, que distribua a riqueza produzida de forma mais justa.

Cada vez que penso na Criação, me marcam duas imagens. A primeira Deus trabalhando o barro, moldando, fazendo, criando homem e mulher. A segunda soprando o sopro da vida na narina. Vibro ao imaginar que Deus trabalhou e que partilhou conosco a sua vida. Cada ser humano perambulando por esta terra tem um pouco da vida de Deus em si. É só respirar. Sinta-se à vontade, aspire e expire. E Deus nos entrega a Criação. Crescei-vos e multiplicai-vos. Dominai a terra e tudo que nela existe…, para zelar, criar, viver. Assim se mistura o humano e o divino.

Não sei se é ousadia perguntarmos: O que é mais sagrado? O trabalho ou a criação? Parece que Deus quer nos dizer que um não existe sem o outro. A vida começa com o trabalho. O trabalho nos torna humanos e divinos.

 

Gustavo Mameluque é jornalista e Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. Colunista do Jornal de Notícias e da Revista Tempo. Correspondente do L’ Osservatore Romano

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