Lendo o último livro do escritor espanhol Javier Cercas, El loco de Dios en el fin del mundo, enquanto acompanhava o Papa Francisco (1936-2025), em que ele narra sua esperança que o vigário de Cristo na Terra pudesse responder a uma pergunta simples mas, ao mesmo tempo, impossível: se sua mãe iria ver o seu pai depois da morte?
A eternidade existe? Iremos ressuscitar? Isso que foi tão importante durante séculos, que ofereceu um sentido para o mundo — agora, o que fazemos com isso? Nada substituiu a religião. Esta é a resposta. Existem substitutos parciais. Nós nos esquecemos de um ponto: que a religião, a ideia de Deus, havia dado completo sentido ao mundo. Isso é incrível. Na Idade Média [476-1453], as pessoas viviam em um mundo ordenado, onde Deus dava sentido a tudo. Era a época do teocentrismo. Durante séculos e séculos, a humanidade viveu desta forma, mais ou menos até o final do século 19, quando Nietzsche [1844-1900] escreveu aquele texto extraordinário, que mostra um louco dizendo: “Deus morreu e nós o matamos”. A partir daquele momento, este grande relato cai. Houve tentativas de substituir este relato, de dar uma explicação global para o mundo, como o marxismo e a psicanálise. Mas estas tentativas não funcionaram.
Não existe um relato que substitua o relato de Deus, o relato da religião. A condição pós-moderna consiste precisamente nisso, como dizia em 1979 o filósofo francês Jean-François Lyotard [1924-1998]. Esse nó na garganta é o que eu descobri na adolescência, quando perdi Deus, essa angústia. E tentei combater a angústia, ou seja, o vazio que Deus havia deixado com a literatura. É claro que foi um erro, pois a literatura não fornece certezas nem respostas. Ela gera incertezas e inquietude. Mas, na própria busca, já havia uma resposta. “Eu não vim trazer a paz, mas sim a espada”. “Todos os homens e todas as mulheres são iguais”, dizia ele, em uma época em que o mundo era dominado pela escravidão.
Jesus Cristo não era um homem que andava ligado ao poder e ao dinheiro, muito pelo contrário. Era alguém que andava por aí com pessoas que não tinham onde cair mortas, com indigentes, prostitutas, com os párias da sociedade. Este entrou de forma muitíssimo mais suave. Acredito que o caminho seja o mesmo, pois é o que a Igreja Católica fixou desde o Concílio Vaticano 2°, o retorno ao cristianismo de Cristo. O que acontece é que alguns papas o seguiram com mais ênfase e outros com menos. O que mais ênfase colocou foi Francisco, sem sombra de dúvida. O novo papa segue o mesmo caminho, mas a forma é totalmente diferente. E a forma é fundamental. No entanto, é muito cedo ainda para falar sobre a trajetória de Leão XIV.
Desde o primeiro dia, o que se viu foi um papa muito mais clássico, muito mais tradicional, muito menos inovador. Este homem tem uma particularidade. Ele, ao mesmo tempo, é missionário e conhece a cúria. Isso o torna o mais original de todos. A verdade é que, seja você ateu ou agnóstico, pelo menos, às vezes, senti-se inveja dos crentes de verdade. De Darcy Ribeiro, por exemplo. A fé não é algo voluntário. Você não pode dizer “Quer saber? Tenho interesse. Como a fé me dá mais força, mais energia, como é um superpoder e, além disso, nunca se sabe, vou ter fé”. A linguagem da Igreja envelheceu, se enfraqueceu, passou a ser muito pouco interessante. E, aqui, a Igreja tem um problema, mas também porque sua linguagem, muitas vezes, é hermética, não é atraente e ninguém a entende. A literatura e a religião ficaram intimamente ligadas por séculos. E isso já não acontece. A Igreja tem um grave problema linguístico. A comunicação no seio da Igreja católica não evoluiu. Muitas homilias afastam os fiéis; ao invés de acolhê-los. Papa Francisco nos trouxe este alerta e esta reflexão em seus escritos.
Nenhuma instituição durou tanto tempo, nem foi tão decisiva no Ocidente quanto a Igreja Católica. Uma instituição que, além disso, é estranhíssima, esquisitíssima. Estamos habituados a ela.
Ou seja, agora que meu pai está morto, sei que ele está comigo, que eu sou meu pai, porque a carne dele se transformou na minha carne, porque suas células se transformaram nas minhas células, porque meu DNA é o DNA dele. Não se trata de imaginação, é um fato constatável. E já é uma forma de transcendência. O escritor espanhol Miguel de Unamuno [1864-1936] dizia: “A imortalidade são os filhos”.
Algo disso existe. Meu pai, meus avós, de alguma forma, continuam vivendo em mim. Quando me olho no espelho, os vejo; sempre. E, quando digo determinadas coisas, vejo minha mãe, ouço minha mãe.
Mas a literatura busca uma forma de transcendência. Cada vez que abrimos e lemos uma página de Miguel de Cervantes [1547-1616], ele, de alguma forma, está conosco, mesmo tendo morrido há tantos séculos. O que nós, seres humanos, não queremos é morrer. Eu não quero morrer e não acredito nessas pessoas que dizem que irão aceitar quando o momento chegar. Embora tenha fé, e esperança no coração.
Gustavo Mameluque. Jornalista. Correspondente do L’ Osservatore Romano para o Brasil. Colunista do Novo Jornal de Notícias e da Revista Tempo. gustavomameluque@gmail.com
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