Roberto Da Matta em seu clássico “ Carnavais, malandros e heróis” nos apresenta a máxima : “ Você sabe com quem está falando? Muito utilizada pelo Brasil afora. No caso especial do Brasil, tudo indica termos uma situação onde o indivíduo é que é a noção moderna, superimposta a um poderoso sistema de relações pessoais. Assim, o “ Você sabe com quem está falando?” , o carnaval e o futebol são fenômenos estruturais e culturais, permitindo uma dialética que torna complexa a operação do sistema no nível puramente econômico. Em informações sociais desse tipo a posição indivíduo/pessoa é sempre mantida, ao contrário das sociedades que fizeram sua “ reforma protestante”, quando foram destruídos , como demonstra Max Weber os mediadores entre o universo social e o individual.
No mundo protestante, desenvolveu-se uma ética do trabalho e do corpo, propondo-se uma união igualitária entre corpo e alma. Já nos sistemas católicos, como o brasileiro, a alma continua superior ao corpo, e a pessoa é mais importante que o indivíduo. Sendo assim, continuamos a manter uma forte segmentação social tradicional, com todas as dificuldades para a criação das associações voluntárias que são a base da “ sociedade civil”, fundamento do Estado burguês, liberal, igualitário, dominado por indivíduos.
Temos, então, no Brasil, ao lado do “ Você sabe com quem está falando?”, as famosas expressões “ preto de alma branca” e “ dinheiro não traz felicidade”, tudo isso junto com a equação segundo a qual trabalho é igual a castigo e riqueza sinônimo de sujeira, de coisa ilícita. Basta ler alguns aforismos de Benjamim Franklim para ver coma a ideia do capitalismo é de entrar no mundo, e não fugir e renunciar a ele, como parece ser o caso entre nós.
Desse modo, no sistema protestante , o corpo vai junto com alma, o dinheiro segue o trabalho, e o indivíduo faz o mundo e suas regras. Entre nós latinos o corpo é menor que a alma, dinheiro e trabalho são coisas separadas e são as pessoas que comandam. A ideia é de uma sociedade segmentada, com as oposições clássicas entre homem/mulher, velho/moço, rua/casa, boa vida/trabalho. Temos modos muito mais poderosos de compensar as diferenças econômicas, já que no sistema, é múltiplo e permite várias classificações.
Uma sociedade católica não deveria ser, em princípio, uma sociedade desigual. Uma sociedade em que as “carteiradas” ocorrem com frequência e em que determinadas castas, que preferimos não citar, se sentem superiores ao “ homem comum”. Ás vezes porque têm um alto padrão salarial, às vezes por pertencerem a uma profissão desejada por todos e às vezes por descenderem de famílias tradicionais. Esta distorção também ocorre, infelizmente na civilização protestante do norte, em que os mais endinheirados e bem-sucedidos se consideram superiores aos mais pobres e com menos sorte.
Até quando ouviremos esta expressão? “ Você sabe com quem está falando?”. A melhor resposta seria : Com um cidadão brasileiro, com direitos e deveres, como outro qualquer.
Afinal, daqui a alguns anos, nenhum de nós estará mais vivendo físicamente neste planeta. Então por que tanta guerra, ódio, ressentimentos, discórdia e separação? Por que tanta diáspora e violência? Já dizia Jean Paul Sartre com maestria : “ Se devemos partir algum dia, de qualquer forma, por que tanta agitação? Sejamos serenos!!! “ Pois é morrendo que se vive para a vida eterna….”
Gustavo Mameluque. Jornalista. Especialista em “Lingua e Civilização francesa” pela Université Paris X- . Colunista do Jornal de Notícias e da Revista tempo.
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