DECEMBER 9, 2022

Evento “E não sou uma mulher?” realizado na Unimontes discutiu sobre mulheridades trans e combate à violência

O evento aconteceu em parceria com Inserto, Arco-Íris do Amor, Transidentidade, Viggi Fotografias e Arambê, e teve como apresentadora a irreverente Lukonica Pop

Foto: Larissa Durães

Em comemoração ao Mês das Mulheridades, a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) realizou, no dia 18 de março, o evento “E não sou uma mulher?”, que trouxe três mulheres transvestis para debater os desafios e vivências da comunidade trans em uma sociedade que as marginaliza, mas continua a consumi-las física e socialmente.

O evento foi promovido em parceria com o projeto de extensão (In)Serto – Núcleo pela Diversidade Sexual e de Gênero, Arco-Íris do Amor, Transidentidade, Viggi Fotografias e Arambê Consultoria, com apresentação da irreverente Lukonica Pop. “A gente trouxe essa conversa para mostrar que essa é uma luta de todas nós. Quando uma mulher trans luta pelos direitos dela, ela também está lutando pelos direitos de todas as outras mulheres”, destacou Carla Santos Arruda, consultora empresarial em diversidade, inclusão, equidade e pertencimento.

Primeira edição em Montes Claros

Esta foi a primeira edição do evento na cidade, e não há registros de iniciativas semelhantes em outras regiões do país. “Foi uma demanda nossa, minha e da Letícia Imperatriz, enquanto mulheres trans, de trazer essa discussão e essas conversas. E foi super bem abraçado por diversas instituições e empresas”, explicou Carla.

Além de abordar a questão das feminilidades, o evento também trouxe dados alarmantes sobre a violência contra pessoas trans no Brasil. “O Brasil está, pelo 15º ano consecutivo, no primeiro lugar entre os países que mais matam pessoas trans no mundo, segundo a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). E esses números nem são oficiais, porque não há um levantamento governamental sobre isso”, alertou.

Outro dado preocupante é a expectativa de vida das mulheres trans no país. “A média é de apenas 35 anos. Nem chamamos isso de expectativa de vida, porque é um absurdo. Muitas morrem assassinadas, outras tiram a própria vida ou falecem por falta de acesso a condições básicas de sobrevivência”, enfatizou Carla.

Exclusão social e desafios no mercado de trabalho

A dificuldade de inserção das pessoas trans no mercado de trabalho e na educação também foi um dos temas discutidos. “Menos de 4% das pessoas trans estão no mercado formal. A maioria ocupa subempregos, e apenas 0,3% chegam ao ensino superior. Muitas sequer concluem o ensino médio, porque a escola é um ambiente hostil para nós”, denunciou Carla.

Na esquerda: a professora de Sociologia Daliana Antônio, integrante do (In)Serto e Carla Santos Arruda, consultora empresarial em diversidade, inclusão, equidade e pertencimento. Foto: Larissa Durães

 

A professora de Sociologia Daliana Antônio, integrante do (In)Serto, destacou que a discussão sobre identidade de gênero já vem sendo trabalhada desde as décadas de 1960 e 1970, tornando-se hoje um tema essencial dentro das políticas públicas. “Há uma questão geopolítica a respeito de pessoas travestis e transexuais, e cada década trouxe novos marcos históricos e classificações de identidade de gênero”, explicou.

O (In)Serto tem analisado a realidade da população trans e seu acesso à saúde, destacando as barreiras que impedem essa população de usufruir plenamente desse direito. “Mesmo com ambulatórios específicos, há resistência no acolhimento, e sabemos que a falta desse acesso resulta, muitas vezes, na morte dessas pessoas. Hoje, existem apenas dez ambulatórios especializados no Brasil, e Montes Claros está na iminência de estruturar o seu”, afirmou Daliana.

Nome social e políticas públicas

Outro ponto fundamental discutido foi o direito ao uso do nome social, que, apesar de garantido por lei, ainda enfrenta resistência em muitas instituições. “O nome social foi uma vitória e representa o primeiro passo para a autonomia dessas pessoas. Ainda assim, há instituições que estão se adequando lentamente. Por isso, no (In)Serto, trabalhamos com o letramento em diversidade sexual e de gênero, para que a nomenclatura correta seja respeitada”, ressaltou Daliana.

O evento também reforçou a necessidade de ampliar as discussões sobre a violência e a discriminação enfrentadas pelas mulheres trans. “A universidade pública precisa garantir o acesso de todas as pessoas. Nosso histórico de colonização reflete na exclusão de diversas populações do sistema educacional, e compreender essas experiências nos ajuda a construir novas iniciativas”, afirmou a professora.

A expectativa é que essa primeira edição do evento gere novas parcerias e incentive mais debates sobre o tema. “As mulheres que participam hoje já trabalham conosco de alguma forma. Conhecer esses relatos e promover eventos como esse nos ajuda a criar novos espaços e oportunidades para ampliar essa luta”, concluiu Daliana.

Repórter  Larissa Durães

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