DECEMBER 9, 2022

Assim como acontece nos principais jornais de circulação nacional, que contam com parlamentares e personalidades públicas entre seus articulistas, o Portal Revista Tempo passa a contar com a participação do deputado federal Paulo Guedes em uma coluna mensal exclusiva. Intitulada “Leão do Norte em Brasília-DF”, a coluna será um espaço de análise, opinião e reflexão […]

Assim como acontece nos principais jornais de circulação nacional, que contam com parlamentares e personalidades públicas entre seus articulistas, o Portal Revista Tempo passa a contar com a participação do deputado federal Paulo Guedes em uma coluna mensal exclusiva.

Intitulada “Leão do Norte em Brasília-DF”, a coluna será um espaço de análise, opinião e reflexão sobre temas relevantes da política nacional, com atenção especial às pautas de interesse de Minas Gerais e de sua população.
A iniciativa amplia o debate público e aproxima os leitores das discussões que influenciam os rumos do país e do nosso estado.

Nesta edição, o artigo sobre o chamado “Deputado TikTok” apresenta uma análise argumentativa sobre o tema, trazendo reflexões que contribuem para o debate político e para a compreensão dos eleitores sobre os acontecimentos da atualidade.

 

 

Deputado Tik-Tok só representa a si mesmo

 

Por que o voto em influenciador digital é ruim para a política e nocivo à representação parlamentar

 

São oportunas para o Brasil a reforma eleitoral proposta esta semana pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, que prevê o voto distrital misto no país a partir de 2034, somada à regulamentação desse território sem dono da propaganda política nas plataformas digitais. Elas preservam a finalidade da representação federal em um país de realidades tão distintas, e sofridas, como é o nosso.

Logo após o fim do primeiro turno, no início de outubro, apresentei projeto de lei para garantir mais isonomia nas disputas eleitorais, com a proposta de veto de propaganda eleitoral para perfis, páginas, canais ou contas em redes sociais com mais de 100 mil seguidores ou inscritos vinculados a pré-candidatos e candidatos.

A medida fica restritas aos três meses que antecedem o primeiro turno das eleições, com validade até o encerramento do pleito em casos de segundo turno. Não se pretende acabar com o papel das plataformas digitais nas eleições, mas reconhecer que elas premiam a polarização ao apostar no confronto direto entre atores políticos em prejuízo dos problemas reais do país.

Represento o Norte de Minas e os Vales do Jequitinhonha e do Murici em Minas Gerais e, posso garantir, o voto em figuras populares criadas a partir da manipulação dos algoritmos é ruim para o interesse de populações que ficam à margem das políticas públicas federais – como é o caso dessas regiões mais empobrecidas do meu Estado.

Minha proposta busca reduzir os efeitos dessa imensa assimetria que se estabeleceu no país entre candidatos midiáticos e aquelas lideranças políticas verdadeiras, com serviços prestados às suas bases e ao país, que têm sido atropeladas nas urnas pelo efeito de arregimentação das plataformas digitais, normalmente operadas por pessoas sem histórico de luta política ou trabalhos comunitários.

Vejam o caso do deputado Nikolas Ferreira, que se sagrou majoritário em 423 municípios mineiros nestas eleições – além de ter recebido votos de praticamente todas as cidades do Estado. O que Nikolas tem a oferecer para mais de 3 milhões de eleitores em mais de 800 municípios?

Nada. Concretamente, sua representação é nula, exceto pela política do espetáculo grotesco de lacrações ideológicas e vazias em vídeos produzidos para conseguir seguidores/apoiadores. Há algo de anormalidade na disputa proporcional quando um deputado, isoladamente, atrai mais votos que o segundo colocado na eleição para governador – como aconteceu em Minas Gerais neste 2026.

A representação efetiva e cotidiana é feita pelo deputado que conhece o território e suas carências por políticas públicas. Represento 150 municípios do semiárido mineiro. Minha rotina consiste em ouvir os gritos por socorro de vítimas da seca, de sertanejos que muitas vezes não contam com água potável, de quem não dispõe de estradas transitáveis, de insumos para a agricultura familiar, postos de saúde com atendimento médico ou escolas com professores disponíveis. Meus mandatos são a ponte entre esses gritos de excluídos e os gabinetes dos ministérios e autarquias em Brasília-DF.

Em exemplo aleatório, Nikolas Ferreira recebeu 60,2 mil votos em Montes Claros – quase o dobro da minha votação e do deputado Delegado Marcelo Freitas (União), aliado ideológico da extrema direita. Nikolas triplicou sua votação em Montes Claros entre uma eleição e outra, mas sua atuação em favor do povo daquele município é zero.

Perceba o quanto isso é ruim para a população: votação estrondosa e nenhum compromisso com as demandas reais do povo. Esse padrão se repetiu em todas as regiões do Estado.

São muitas as razões para que o Congresso Nacional abra o debate sobre o uso de grandes audiências digitais como vantagem durante a disputa eleitoral. Já ficou demonstrado que essas estruturas de grande alcance para propaganda eleitoral e os mecanismos destinados a transferir ou ampliar sua audiência em benefício de uma campanha mudou, para pior, a qualidade do Parlamento.

O Plenário da Câmara dos Deputados produz semanalmente exemplos dos impactos na representação política e o empobrecimento do debate protagonizado por arrivistas e oportunistas que se oferecem para representar a população sem preparo prévio para isso. O resultado é o show de horrores e de ataques a pessoas e o vazio de ideias e projetos.

Já ficou provado que os dispositivos de distração digital rendem votações espetaculares, só que, paulatinamente, vão lotando as cadeiras do Parlamento de seres narcisistas, especializados em trazer tensão e ódio para o debate público. Produzem muito barulho, mas de baixíssima eficácia quando o desafio é a solução das demandas reais da sociedade.

 

*Deputado federal eleito para o terceiro mandato e ex-presidente da Comissão de Tributação e Finanças da Câmara dos Deputados. Exerceu ainda o cargo de coordenador estadual do Dnocs (2003) e secretário de Desenvolvimento e Integração do Norte e Nordeste de Minas Gerais (2015).

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