DECEMBER 9, 2022

A Odisseia de Homero

O diretor e roteirista do filme, Christopher Nolan, deve ter avaliado que, de uma forma ou de outra, Ulysses e todos nós um dia partiremos para a última viagem ou para a viagem eterna, como queiram…

A superprodução da UNIVERSAL nasceu em 2024 e, já muito ambicioso por si só, Christopher Nolan ainda assumiu o roteiro e a direção. A responsabilidade de adaptar uma obra tão clássica e conhecida é enorme e o cineasta deu conta do recado. Sem surpresas por aqui, já que Nolan havia acabado de passar por uma onda de vitórias no Oscar de 2024 com seu longa Oppenheimer.

Uma preocupação legítima e que inclusive foi pontuada em algumas primeiras impressões é o ritmo do filme. Uma obra de quase 3 horas que retrata a jornada de Odisseu de volta para Ítaca seis anos após o final da Guerra de Troia e 20 anos após a sua partida. O arco e a flecha eram as armas mais poderosas naquela época. Os braços fortes também.

Um diferencial dessa história está na mitologia grega, que oferece uma ação diferente da que estamos acostumados nas telas de cinema. Sem armas de fogo, poderes modernos ou efeitos visuais extremamente fantasiosos, mas com cenas que não deixam de ser aterrorizantes.

 

Anne Hathaway

 

Anne Hathaway entrega uma performance emocionante como Penélope, que ouso dizer ser uma das personagens femininas mais interessantes que Nolan já escreveu. Ela foi a minha escolha favorita do elenco neste filme, mas os outros não ficam tão atrás. Matt Damon dá vida a um Odisseu sensível sem deixar de ser imponente, deixando o protagonista interessante do começo ao fim.

No momento em que Calipso de Charlize Theron entra em cena, você não imagina outra atriz nesse papel — é o contraste perfeito para a Penélope de Hathaway. Nolan não deixa nenhum dos mitos principais de fora de sua adaptação.

Muito do que se conhece de A Odisseia são seus mitos. Grande parte da jornada de Odisseu é contada por meio de flashbacks quando ele está na Ilha de Calipso e Christopher Nolan adaptou todas as histórias com maestria e respeito à obra original. Apesar de escrever ficção, o diretor é conhecido por fazer filmes realistas e humanos e, de forma certeira, isso não foi diferente nem nos mitos de A Odisseia. Por se tratar de uma história extensa, alguns detalhes foram alterados para a adaptação, mas nada que tenha atrapalhado na narrativa. As sereias não foram mostradas nem filmadas por Nolan. Seriam cenas incríveis. Onde ele poderia encher a tela de atrizes deslumbrantes e misteriosas: tipo Demi Moore, Nicole Kidmam, ou mesmo Juliet Binoche, que protagonizou Penélope no longa-metragem, “O retorno”, de 2024 (prime vídeo).

Ainda assim, para um filme de quase 3 horas, fiquei satisfeito que o diretor não cortou nenhuma das histórias por completo, apenas omitiu alguns personagens, como o deus dos ladrões e dos viajantes, e mudou como certos conflitos se desenrolam.

 

Matt Damon

 

O Odisseu de Matt Damon não é um herói frio, mas sensível, emotivo e calculista quando necessário. Nem sempre vence pela força, mas pela inteligência e pela “astúcia”. Diferente de Aquiles na guerra de Tróia, em Ilíadas, que se apresentava como um guerreiro forte, quase um super-herói dos tempos atuais. Penélope não é uma esposa passiva, mas uma mulher em sofrimento que, ainda assim, permanece muito estratégica. A Atena atua como deusa da sabedoria ao guiar o protagonista, mas se mostra ligada a tudo que está acontecendo entre os humanos. Em uma época que valoriza respostas rápidas, desempenho constante e perfeição, vale lembrar que maturidade não significa ausência de conflitos. Significa aprender a conviver com dúvidas e imperfeiçoes sem perder a direção.

No fim das contas, a verdadeira viagem de Odisseu não termina quando ele chega a Ítaca. Ela termina quando ele já não é o mesmo homem que partiu, e quando para de sonhar e desejar.

Por fim Nolan alterou o canto 24 da “Odisseia” e finalizou a estória de Odisseu, ou Ulysses, na pequena batalha com os pretendentes de Penépole na Ilha de Ítaca. No original, Ulysses foi perseguido e morto pelos parentes revoltados dos pretendentes mortos. Nada que altere a grandiosidade da obra. Sendo uma obra de arte, ela estará sempre aberta a várias interpretações. E Nolan deve ter avaliado que, de uma forma ou de outra, Ulysses e todos nós um dia partiremos para a última viagem ou para a viagem eterna. Como queiram!

 

Gustavo Mameluque. Jornalista.

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