A final coloca frente a frente dois dos grandes nomes do futebol mundial: Messi, em sua terceira decisão de Copa do Mundo, e Lamine Yamal, jovem estrela espanhola que se tornou um dos símbolos da renovação da seleção.
A partida também reserva um encontro entre mestre e aprendiz. Antes de comandarem Espanha e Argentina, Luis de la Fuente foi professor de Lionel Scaloni no curso de treinadores da UEFA. A sensação entre argentinos e espanhóis é de que este confronto chega com contas pendentes.
Sinto inveja da torcida argentina por terem uma seleção tão aguerrida, tão valente e tão determinada. E também por poderem assistir a um futebol arte que pode se tornar tetra amanhã. E por poderem torcer para atletas que “realmente vestem a camisa pátria”.
Infelizmente, a nossa seleção não disse a que veio e nos decepcionou a todos com a sua falta de vontade e criatividade. Também tivemos inveja do atacante Haaland, da Noruega, por sua postura elegante diante da derrota para a Espanha. Cumprimentou cada um dos vitoriosos. Também tive inveja dos torcedores espanhóis, que também irão disputar a final no domingo. A Espanha anulou o poderoso time francês por meio da posse de bola e da troca de passes, como costuma fazer. Mais que isso. Quando não tinha a bola, se posicionava muito bem, alternando a pressão para recuperá-la rapidamente, com a marcação mais recuada para fechar os espaços.
Nas quartas de final, a França não teve uma única clara chance de gol. A Espanha fez dois gols: um de pênalti e outro após uma bela troca de passes. E teve oportunidades para fazer o terceiro gol. Foi uma aula, um show coletivo, com ótimas atuações individuais, especialmente do meio-campista Rodri. A França decepcionou mais pela atuação coletiva da Espanha do que pela falta de inspiração de seus craques.
Rodri é o pêndulo, elo entre o meio-campo e o ataque. Ele se movimenta de um lado a outro da própria intermediária e inicia as jogadas com um ou dois toques na bola e passes precisos. Raramente erra um passe, pois não tenta o passe impossível. Quando é necessário, dá excelentes passes longos, de um lado para o outro ou para a frente. Craque não é só quem faz muitos gols.
Além de Rodri, a Espanha tem dois excepcionais meio-campistas: Fabián Ruiz, que iniciou o jogo, e Pedri, que entrou no segundo tempo. Isso é uma das principais deficiências da seleção brasileira, não ter um grande craque no meio-campo. A derrota da França não diminui a qualidade de seus jogadores ou da equipe. A multicultural França passou a ter grandes jogadores por causa das escolinhas nas periferias, com a presença de um grande número de imigrantes e pela eficiência do projeto esportivo do Centro Nacional de Futebol, em Clairefontaine, que tive a alegria de conhecer na periferia de Paris, em 1987. O excepcional futebol francês não existe por acaso.
A Espanha vai enfrentar na final a valente e determinada Argentina. As duas seleções não tiveram grandes atuações, mas, graças aos craques, à força coletiva, à capacidade de superar as dificuldades e ao acaso, são candidatas ao título. Não há favorito. São equipes diferentes no desenho tático e na estratégia. Enquanto a Argentina preenche aos pouco o meio-campo para trocar passes e ficar com a bola – uma estratégia parecida com a da Espanha – até Messi recebê-la para acelerar em direção ao gol, a Espanha exerce total domínio sobre o meio de campo, sufocando o adversário e gerando oportunidades para Lamine Yamal e os ponteiros em ataque.
Os argentinos ainda comparam Lionel a Diego. Messi, por ter uma longa, espetacular e regular carreira, é mais craque. Mas os momentos deslumbrantes de Maradona são mais empolgantes e artísticos que os maiores de Messi. O craque atual representa a realidade, a razão, o máximo possível de ser feito, enquanto o grande Maradona simboliza a paixão, o tango, o trágico e o sonho impossível. Muitos argentinos gostam mais de Maradona porque ele representaria a ambição, a inconsistência, a esperteza e a loucura humana. Para muitos, Messi não supera Dieguito.
Enfim, teremos no domingo um grande clássico! De um lado a genialidade de Messi. Do outro, o promissor futebol de Lamine Yamal, a exuberância do meio-campista “Bola de Ouro” Rodri e a força do ala Cucurella. Os deuses do futebol agradecem. Os amantes do futebol arte também!
Enquanto isso, nossos atletas descansam nos Estados Unidos em total descaso quanto à imensa e apaixonada de outrora torcida brasileira! Por isso, o avião da seleção retornou ao país apenas com um único jogador. O restante era a comissão técnica e funcionários da CBF. Uma vergonha!!!
