DECEMBER 9, 2022

A paixão pelo futebol!

Na próxima vai dar certo!

Depois de mais uma eliminação, o ritual se repete: a bandeira guardada, o silêncio nos grupos de WhatsApp, a promessa de que “dessa vez nem vou mais assistir“. E, quatro anos depois, lá está o brasileiro de novo vestindo a camisa, torcendo com a mesma intensidade de sempre — como se a última frustração jamais tivesse acontecido. De repente, tudo novamente.

 

 

Esse ciclo de dor e esperança renovada tem uma explicação que vai além do campo, e ela mora na mente de quem torce. A origem da própria palavra ‘torcer’. Ela vem do mesmo gesto de torcer uma roupa, de forçar dois sentidos opostos ao mesmo tempo — o que convoca o corpo do torcedor de um jeito quase literal, como se ele se contorcesse junto com o time. No fundo, explica o psicanalista, torcer é sinônimo de desejar, de querer, de sonhar mesmo sabendo que o time não vence há décadas.

Há também um componente coletivo poderoso nessa equação: ao contrário de boa parte dos esportes, o futebol permite que o mais fraco vença o mais forte. Foi o que aconteceu com a seleção de Cabo Verde — uma equipe de poucos recursos avançando contra potências estabelecidas e, por pouco, não eliminando a atual campeã do mundo.

Essa possibilidade mobiliza os sonhos de quem enfrenta as próprias improbabilidades na vida.

Os jogadores mudam, contratos terminam, gerações se sucedem — mas o time, como significante, permanece. Uma verdadeira paixão. Um clube sobrevive aos seus piores e melhores momentos, e é por isso que qualquer torcedor pode falar em nome da equipe, para o bem e para o mal. Essa identificação coletiva ultrapassa até as próprias rivalidades: quando é a seleção que entra em campo, as bolhas entre torcidas organizadas se dissolvem numa só comunidade imaginada.

O tamanho dessa comunidade explica o tamanho da decepção.

Toda expectativa muito grande produz uma frustração proporcional — e a Copa do Mundo é a maior expectativa coletiva que o país constrói.

Por isso algumas pessoas desenvolvem uma estratégia de prevenção cognitiva: fingir que não se importam, recusar-se a desejar para não sofrer com a contradição.

Não existe uma forma mais “saudável” de viver a paixão pelo futebol porque o futebol funciona, em sua origem grega, como pathos — não no sentido médico moderno de patologia, mas como expressão legítima daquilo que cada torcedor carrega de mais irracional.

É no estádio que a vida cotidiana e suas regras de bom comportamento são suspensas, abrindo espaço para xingamentos, exageros e para o que ele chama de “o bárbaro que nos habita”.

Tudo é razoável — desde que não ultrapasse um limite: o do outro. Quando a paixão se transforma em racismo, violência ou ódio ao adversário transformado em inimigo, ali termina a catarse saudável e começa outro problema.

Essa mesma estrutura de aposta no improvável tem um verso menos otimista. É o mesmo mecanismo — a crença de que o resultado contra as probabilidades ainda é possível— que associa à adesão de parte dos brasileiros às apostas esportivas. A epidemia das bets.

A diferença é que no futebol a torcida não tem controle sobre o resultado e sabe disso; já na aposta, a ilusão de participação ativa faz a pessoa acreditar que pode influenciar a sorte. É essa mesma fé no improvável, mobilizada fora do contexto do jogo coletivo que sustenta a aposta mesmo quando as chances matemáticas são desfavoráveis.

No fim, a resposta de por quê o Brasil continua torcendo está na própria natureza do desejo. Decepções, frustrações e privações não encerram o desejo — elas o mantêm vivo.

É por isso que a torcida cresce quando o time cai para a segunda divisão, quando mais precisa do apoio. Um time que vencesse sempre, sem sobressaltos, sem tropeços e dificuldades a própria vida, seria algo monótono e sem graça. Não teríamos porque lutar. Ou reerguer.

O desejo humano é feito de falta — e o desejo do torcedor brasileiro, especificamente, é feito de derrotas.

 

 

Gustavo Mameluque. Jornalista. Correspondente do L’ Osservatore Romano para o Brasil. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros.

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