DECEMBER 9, 2022

Polarização nefasta ao país

Uma pessoa madura deveria ser capaz de dizer: “A esquerda tem algo importante a ensinar sobre proteção social e concentração de riqueza. A direita tem algo importante a lembrar sobre liberdade individual e os limites do Estado”

Lendo o economista da USP Michael França, intelectual de destaque, concordamos com ele, que diz: ”Existe algo empobrecedor em transformar opiniões em trincheiras. A política deveria nos ajudar a organizar conflitos, corrigir injustiças, testar soluções e melhorar a vida das pessoas”. Em vez disso, virou uma máquina de absolver aliados e condenar adversários antes mesmo que eles terminem uma frase. Enquanto uma parte expressiva da esquerda passou a enxergar virtude automática em tudo o que prega, tem-se outra parte expressiva da direita que passou a enxergar ameaça em tudo que tenta corrigir desigualdades históricas. E, no meio desse campo minado, a inteligência pública vai se deteriorando. E, nesse passo, vamos perdendo sucessivas oportunidades de crescer como nação. A cegueira ideológica tem um mecanismo de funcionamento interessante: primeiro, ela oferece pertencimento; depois, inimigos; por fim, uma explicação que, em muitos casos, é superficial para quase tudo. Assim, gradualmente, a pessoa deixa de avaliar fatos e passa a proteger uma identidade. E, uma vez que a política vira meramente um reflexo de identidade, mudar de opinião parece traição, e admitir que o outro lado tem razão em algum ponto pode parecer fraqueza.

 

 

Então, a vida pública se torna uma disputa infantil entre pureza e pecado, e o outro começa a virar apenas uma caricatura. Perceba o quanto perdemos com isso. Perdemos a capacidade de reconhecer problemas reais quando eles aparecem no suposto lado errado. A direita, por exemplo, geralmente enxerga a desigualdade como desculpa de quem não se esforçou o suficiente. Por sua vez, a esquerda, às vezes, trata temas como segurança pública, responsabilidade fiscal e eficiência do Estado como se fossem apenas obsessões conservadoras. Nos dois casos, a sociedade paga a conta. Porque desigualdade ignorada vira ressentimento. Estado ineficiente vira descrença. Violência tratada com bravata vira medo cotidiano.

Uma pessoa madura deveria ser capaz de dizer: a esquerda tem algo importante a ensinar sobre proteção social e concentração de riqueza. A direita tem algo importante a lembrar sobre liberdade individual e os limites do Estado. O erro começa quando cada campo transforma suas verdades parciais em dogma. A partir daí, qualquer divergência vira heresia. E o que dizer da perda da compaixão? Uma vez que alguém passa a ver o outro apenas como expressão do mal, ele deixa de enxergar sua história, seus medos, suas perdas e suas razões. O trabalhador que vota na direita vira alienado. O jovem progressista vira revolucionário de apartamento. O empresário vira explorador. O rico vira parasita. O militante vira doutrinado. E, assim, as pessoas e a humanidade vão desaparecendo atrás de rótulos.

O mais curioso é que muitos dos que criticam a polarização também participam dela. Dizem defender o diálogo, desde que o diálogo confirme suas crenças. Dizem valorizar a ciência, desde que as evidências não contrariem seus desejos. Dizem querer justiça, desde que ela alcance os inimigos primeiro. Dizem defender a liberdade, desde que os outros usem essa liberdade para concordar com eles.

A maturidade política começa quando aceitamos que ninguém está certo o tempo todo. Nem a esquerda. Nem a direita. Nem o centro. Nem os intelectuais. Nem o mercado. Nem os movimentos sociais.

Um país polarizado leva a uma eleição raivosa em que sempre haverá ganhadores e perdedores. Infelizmente o interesse público pode ficar em segundo lugar. E o sonho de um país unificado cada vez mais longe.

 

Gustavo Mameluque. Jornalista. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. Especialista em administração pública pela Escola de Governo da Fundação João Pinheiro.

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