Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisa convencer parte do eleitorado de que ainda tem uma agenda nova a oferecer após três mandatos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tenta se apresentar como uma versão mais moderada do bolsonarismo. Em comum, ambos carregam o desafio de neutralizar desgastes ligados à percepção de corrupção.
Já candidatos como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) enfrentam o desafio de furar a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro e conquistar espaço para além de seus nichos políticos.
A avaliação geral nos bastidores de Brasília, com base em levantamentos qualitativos sobre percepções e motivações dos eleitores, é que os presidenciáveis enfrentam obstáculos específicos para crescer junto ao eleitorado independente, grupo formado principalmente por eleitores menos ideológicos que oscilaram entre Lula e Jair Bolsonaro nas últimas eleições. Esse segmento, avaliam, será decisivo em uma disputa ainda fortemente marcada pela polarização. É justamente nesse cenário que Lula enfrenta o desafio de convencer parte do eleitorado independente de que ainda tem capacidade de oferecer melhora concreta de vida e uma agenda de futuro, em meio à percepção de desgaste após três mandatos do petista. A principal barreira identificada nas pesquisas qualitativas está na frustração de eleitores que migraram de Bolsonaro em 2018 para Lula em 2022 e hoje avaliam que o governo não entregou a melhora esperada, especialmente na economia.
Parte desse grupo, avalia ele, votou no petista mais por rejeição a Bolsonaro do que por identificação com o PT. Esse eleitorado esperava melhora no poder de compra após a eleição de 2022, mas hoje demonstra frustração com a situação econômica. Essa frustração ajuda a explicar a fadiga de parte desse segmento com a polarização entre lulismo e bolsonarismo. Para ele, o eleitor independente quer ouvir menos sobre legado e mais sobre propostas concretas para o futuro. Não por acaso, o governo Lula tem intensificado nos últimos meses o lançamento de programas e medidas voltadas ao consumo e à renda, como o Desenrola 2.0, o Luz do Povo e o Gás do Povo. Aliados do governo avaliam que esse conjunto de medidas deve ajudar na recuperação da popularidade do presidente. O diagnóstico ajuda a entender o esforço do governo para encampar pautas capazes de transmitir sensação de novidade política, como o debate sobre o fim da escala 6×1, numa tentativa de recuperar apoio entre setores mais insatisfeitos do eleitorado. A mesma fragilidade entrou no radar da pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Aliados do senador apostam em explorar a percepção de cansaço de parte do eleitorado com os sucessivos mandatos petistas.
Como parte dessa estratégia, o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da pré-campanha de Flávio, afirma que um dos eixos será mostrar ao eleitorado que “já venceu o prazo de validade da gestão petista” após seu período no comando do País.
Ao mesmo tempo, Flávio tenta adotar um tom mais moderado e ampliar o diálogo para além do núcleo mais fiel do bolsonarismo. Pesquisas qualitativas indicam que uma das principais barreiras para conquistar o eleitorado independente é justamente demonstrar uma postura menos radical que a de outros integrantes do clã Bolsonaro.
Outra resistência recorrente identificada entre eleitores independentes é a avaliação sobre honestidade dos candidatos. A leitura captada nos grupos focais é que suspeitas de corrupção continuam sendo um dos principais fatores de rejeição nesse segmento do eleitorado.
O tema corrupção é justamente um dos principais “telhados de vidro” tanto de Lula quanto de Flávio Bolsonaro. No caso do petista, o desgaste ainda estaria associado à memória de escândalos históricos, como o Mensalão e os desdobramentos da Operação Lava Jato.
Já o senador Flávio Bolsonaro enfrenta o peso de investigações sobre suposta rachadinha e enriquecimento ilícito, além da divulgação, na última semana, de um áudio em que pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar um filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A visita recente ao Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, faz parte do esforço para melhorar a imagem do senador perante o eleitorado e reverter a tendência de pequena queda nas pesquisas.
Inevitavelmente, o principal atributo buscado hoje pelo eleitor independente é honestidade. Independentes, que representam próximo de 8% do eleitorado brasileiro. E que definem as eleições na reta final, a se considerar que o voto em Lula e Flávio já está cristalizado na faixa de 30 a 35% para ambos, segundo a Pesquisa Quaest recente. Ou seja, aconteça o que acontecer, Lula e Flávio devem chegar empatados no segundo turno.
Nas entrevistas com eleitores independentes, no entanto, nenhum dos nomes colocados até agora conseguiu se consolidar como alternativa clara à polarização. Na avaliação dos especialistas, isso ocorre porque parte das pautas defendidas por esses pré-candidatos acaba se aproximando dos temas já ocupados por Lula e Flávio Bolsonaro.
Esse espaço ainda não preenchido poderia abrir margem para nomes como Renan Santos, que tenta se apresentar como alternativa tanto ao lulismo quanto ao bolsonarismo. Entre eleitores independentes, porém, Renan enfrenta resistência por posições consideradas radicais ou controversas, além da ausência de experiência administrativa. É a sucessão presidencial acelerando as turbinas perante o eleitorado.
Gustavo Mameluque. Jornalista. Colaborador da Revista Tempo e do Jornal de Notícias. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros.
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