Luiz Felipe Condé nos ajuda a concordar que as redes sociais deram voz aos imbecis. E que não se entende mais a prática da ironia. Outra acusação comum é que elas radicalizaram posições políticas. Sem dúvida são acusações consistentes. “As redes são o que se chama em filosofia de causa ocasional, ou seja, elas criam as condições para que um determinado fenômeno aconteça, fenômeno este cuja causa não são as redes em si”.
Não acredito que as redes causem de fato sintomas como os descritos aqui. Creio, sim, que a causa eficiente desses sintomas são a própria espécie humana e sua estrutura psicótica essencial. A humanidade nunca evoluiu num ambiente de ampla palavra como hoje, que, ao final do dia, se torna ruído insuportável — a fala nunca foi “pensada” para ser tão praticada como hoje em dia. Vivemos em um país de extremos. Em um país dividido.
A crise da democracia, apontada por Tocqueville no século 19, hoje se faz realidade plena. O autor francês percebeu – na sua viagem à “jovem democracia americana”, como ele se refere aos Estados Unidos no seu clássico “Democracia na América”, – que os cidadãos americanos tinham opinião sobre tudo e tendiam a tomar como conhecimento o que mais se repetia ao seu redor. Nascia, assim, a opinião pública. Tocqueville foi um profeta. O fato é que a circulação da palavra em escala como vemos hoje não parece ter implicado num entendimento maior entre as pessoas; não construiu nenhuma grande árvore do conhecimento nem grandes parcerias construtivas de maior tolerância. Aliás, o que aconteceu parece ter sido justamente o contrário. Quanto mais as pessoas “conversam”, menos se entendem. Influencers que entendem de tudo atraem milhares de seguidores em uma busca sem sentido e sem razão de ser. Surgem da noite para o dia como enxame de maribondo no outono.
Comentários são feitos sobre pessoas como se quem faz esses comentários conhecesse de fato o objeto dos comentários e levantam hipóteses que só servem ao ódio de quem as levantou. Sem se preocupar com as consequências nefastas que determinados comentários e opiniões venham a causar, a internet se tornou “terra de ninguém e de todo mundo”. Onde se pode, tranquilamente, injuriar, difamar e caluniar sem temor de ser responsabilizado. A ilusão iluminista de que a razão move o mundo e as pessoas têm impedido muita coisa que os antigos já sabiam e que nós, na nossa arrogância moderna, esquecemos ou, simplesmente, negamos em favor dos delírios do progresso moral e político humano, a humanidade permanece imóvel em seus erros, e poucos homens superam essa imobilidade. A ampliação da circulação das palavras destruiu em muito o significado das próprias palavras. Desgasta-se uma palavra pelo uso obsessivo dela, levando-a à perda de qualquer significado real. Elegem-se certas palavras, que se querem conceitos, como chave absoluta de intepretação da vida psíquica, da sociedade e do mundo, gerando mais empobrecimento no entendimento desta mesma realidade. Quem assistiu ao filme “Nuremberg”, que concorreu ao Oscar, pode observar de perto a importância das narrativas e das versões de cada lado da história.
Antes dos julgamentos de crimes de guerra nazistas em Nuremberg, que começaram em novembro de 1945, um obscuro psiquiatra do exército americano chamado Dr. Douglas Kelley recebeu ordens para entrevistar os prisioneiros, principalmente Hermann Göring. Supostamente, o objetivo era avaliar a aptidão deles para o julgamento, mas na verdade, a intenção era obter informações privilegiadas sobre como eles conduziriam sua defesa. Os generais nazistas que foram julgados em Nuremberg tinham a plena convicção de que nada fizeram de errado, e que eles só estavam sendo questionados porque perderam a guerra para os aliados. Se fossem os vencedores, seus argumentos excludentes seriam a prática de hoje. A raça ariana teria vencido. E, incrível como até à ”beira da forca”, insistiam em idolatrar Adolf Hitler.
O uso alargado de palavras historicamente dramáticas — banalizando-as — força a avaliação da realidade. A filosofia de Foucault — e Marx antes dele — possibilitou o uso da ideia de que tudo é político, ou perpassado pela lógica política, numa escala hoje que qualquer dificuldade nas relações humanas deve ser interpretada na chave do opressor-oprimido – (Pondé).
O que dizer da palavra ”nazista”, ou “fascista”, ou de outras palavras/expressões como “direita”, “esquerda”, “extrema-direita” e “extrema-esquerda”, que deveriam ser evitadas a fim de que, em pouco tempo, não descreva qualquer forma de amor, educação, formação ou parentalidade?
Esses ‘sintomas’ não nos espantam porque não alimentamos nenhuma grande esperança em relação a nossa humanidade. E penso que esta desesperança se manifesta em vários homens e mulheres que desejam o bem comum e a simplicidade, principalmente por vivermos em um país polarizado politicamente. Em síntese, um país dividido.
Gustavo Mameluque. Jornalista. Correspondente do L’ Osservatore Romano para o Brasil. Colaborador do Jornal de Notícias e Revista tempo.
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