A escritora Marli Silva Fróes, pesquisadora e professora do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), atravessou mais um marco em sua trajetória literária. Em Belo Horizonte, durante o Encontro dos Vales realizado no Mercado de Santa Tereza, ela tomou posse como acadêmica titular da Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha (ALVA), assumindo a Cadeira nº 30, cujo patrono é o artista circense e ator Amantino Schubert de Souza Magalhães. A cerimônia ocorreu no dia 8 de março, data que ecoa lutas, memórias e conquistas das mulheres.
Mais do que uma cerimônia literária, o momento foi simbólico. No Dia Internacional da Mulher, a entrada de Marli na academia reforçou um gesto político e poético: ocupar espaços historicamente restritos às vozes masculinas e transformá-los em territórios de múltiplas narrativas.
Em seu discurso de posse, a escritora destacou o sentido coletivo que pretende dar ao novo lugar que passa a ocupar na Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha. A escritora afirmou receber com alegria a Cadeira nº 30, cujo patrono é o artista circense e ator Amantino Schubert de Souza Magalhães, que também atuou ao lado do cineasta montes-clarense Carlos Alberto Prates Correia.
“Tomar posse na ALVA representa assumir um lugar, corpo-território que se constituiu – e ainda se constitui – ao longo dos anos, seja por minha atuação cidadã, seja na escrita, nas pesquisas, ou na promoção do letramento literário. Há muitos escritores, mas ainda carecemos de pessoas que incentivem a leitura literária, isto é o letramento literário. Estar nesse lugar, hoje, aumenta a minha responsabilidade com o fazer literário e com a promoção da leitura”, destacou Marli Fróes, professora lotada no IFNMG-Campus Diamantina.
Presença feminina e valorização da literatura do Vale
Ao abordar a presença feminina na literatura, Marli Fróes lembrou em seu discurso de posse que as mulheres ainda são minoria em instituições literárias, citando como exemplo a Academia Brasileira de Letras, onde apenas seis das quarenta cadeiras são ocupadas por mulheres.
Nesse contexto, ela ressalta que a Cadeira 30 também assume um significado simbólico ao passar a ser ocupada por uma mulher vinculada ao IFNMG. Para Marli, essa presença reforça o diálogo entre a academia literária e os territórios onde a instituição atua. “A cadeira 30, antes ocupada por um homem passa a ser ocupada por uma mulher que é inserida em uma instituição, o IFNMG, que tem seu campo de atuação no Norte de Minas, Vale Mucuri e no Vale Jequitinhonha”, afirmou.
Ao comentar essa relação entre a instituição de ensino e o universo cultural da região, a escritora também destaca a importância da Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha para a valorização da produção literária do território. Segundo ela, embora a ALVA seja uma instituição recente, nasce em um espaço marcado por forte tradição cultural. Dessa forma, Marli acredita que a “ALVA veio justamente para contribuir com a visibilidade da literatura desse Vale, do povo, da cultura local. De algum modo, o IFNMG, enquanto sujeito-coletivo, estará também ocupando essa cadeira”.
ACADEMIA DE LETRAS DO VALE DO JEQUITINHONHA (ALVA)
Fundada em 2023, a Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha surgiu com a proposta de fortalecer a tradição literária e cultural da região, marcada por uma produção artística intensa que envolve música, poesia, oralidade e memória popular.
Idealizada pelo escritor e agitador cultural Tadeu Martins, a instituição reúne nomes importantes da cultura mineira. Entre os integrantes estão artistas como Paulinho Pedra Azul, Rubinho do Vale e Saulo Laranjeira.
A posse de novos membros ocorreu durante o 3º Encontro dos Vales, evento que levou para a capital mineira expressões culturais do Jequitinhonha, do Mucuri e do São Francisco. Música, literatura, gastronomia e artesanato dividiram espaço, transformando o mercado de Santa Tereza em um retrato simbólico do interior mineiro.
Para a escritora Marli Fróes, participar do encontro foi também uma experiência de pertencimento cultural: “Foi uma experiência incrível de imersão cultural nos três vales – São Francisco, Mucuri e Jequitinhonha. Foi de uma delicadeza ímpar testemunhar o interior, presente na metrópole, seduzindo com seus artistas”.
Na avaliação da artista, uma academia de letras cumpre um papel que vai muito além do reconhecimento simbólico de autores. Ela “tem um papel fundamental, como guardiã de memórias, espaço para assegurar acervos, e instância de promoção de autores e da literatura oral”.
Segundo Marli, ao valorizar escritores, registrar narrativas populares e fortalecer a circulação de obras e saberes, instituições como a ALVA contribuem para consolidar o sentimento de pertencimento cultural da população, porque “saber quem somos nos preserva bastante frente a processos violentos ou opressivos”, assegura.
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Aproximação da ALVA com estudantes e instituições de ensino
Entre os objetivos da academia também está o estreitamento de laços com instituições educacionais da região. A proposta é ampliar o diálogo com estudantes por meio de palestras, encontros literários, saraus, oficinas de escrita e projetos culturais.
No caso do IFNMG, essa aproximação já começa a se desenhar. Marli explica que a literatura regional já faz parte de suas práticas pedagógicas com os estudantes do Campus Diamantina e que algumas iniciativas já ocorreram de forma espontânea.
Um exemplo foi a participação da poeta Beth Guedes, integrante da ALVA, em um sarau literário realizado no campus. A expectativa é que, nos próximos anos, novas atividades conjuntas fortaleçam esse intercâmbio entre produção literária e formação de leitores.
Próximos projetos e iniciativas
A academia também planeja ampliar suas ações culturais nos próximos anos. Uma reunião prevista para abril deve alinhar novas iniciativas voltadas à difusão da literatura do Vale.
Entre as atividades previstas está a participação da ALVA no 41º Festivale – Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha, que será realizado em junho, na cidade de Botumirim (MG). O festival é um dos mais tradicionais movimentos culturais da região e reúne artistas, escritores, músicos e grupos culturais.
Dentro da programação do evento, a academia deve organizar ações literárias como feiras de livros, oficinas de escrita, concursos de poesia e a tradicional “Noite Literária”, espaço dedicado à leitura pública de poemas e textos autorais.
A poesia como terrítório de criação
Além da atuação acadêmica e cultural, Marli Silva Fróes construiu ao longo dos anos uma trajetória consistente como poeta e ensaísta, participando de diversas publicações coletivas e projetos editoriais voltados à poesia contemporânea brasileira. Entre as obras mais recentes das quais participa está “Novas vozes da poesia brasileira: uma antologia crítica” (2024), organizada por Cláudio Daniel, que reúne autores representativos da produção poética atual no país. A escritora também integra a coletânea “Constelação Haroldo de Campos”, antologia celebrativa dedicada ao poeta e tradutor concretista, igualmente organizada por Cláudio Daniel.
Entre suas obras autorais, destaca-se o livro Carnaverbo, publicado originalmente em 2010 e que agora ganhará uma nova edição. A obra foi recentemente indicada no Edital do Processo de Seleção em Letras / Estudos Literários 2026 da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), reconhecimento que amplia a circulação acadêmica do livro e reforça sua relevância no campo da poesia contemporânea produzida no Norte de Minas.
Segundo Marli, o relançamento do livro está em preparação e integra um momento de intensa produção literária: “Vou relançar Carnaverbo, livro que publicado em 2010 e indicado para o processo seletivo do mestrado da Unimontes. Tenho dois livros de poesias já prontos para encaminhar para editoras e sempre estou participando de antologias”.

No livro “Carnaverbo”, a autora explora temas ligados à experiência feminina e às tensões entre corpo, vida cotidiana e criação literária
Carnaverbo: poesia que atravessa o corpo e a palavra
A autora explora em Carnaverbo temas ligados à experiência feminina e às tensões entre corpo, vida cotidiana e criação literária. A própria escolha do título revela esse movimento: Carnaverbo nasce do encontro entre as exigências do corpo, da carne, da vida e a necessidade da escrita.
Para Marli, a poesia surge como uma forma de performar o corpo por meio da linguagem, criando um espaço onde papel e corpo se tornam metáforas entrelaçadas. Ao longo dos poemas, emergem reflexões sobre maternidade, desejo, cansaço, prazer, memória e resistência.
A obra, elucida a autora, apresenta um eu lírico marcadamente feminino, que busca desconstruir estereótipos ao expor contradições, fragilidades e desejos. Nesse percurso, a poesia assume múltiplas formas, ora próxima de um diário, ora de uma performance, de um canto, de uma oração ou de uma crônica, numa tentativa de dar conta da multiplicidade da experiência feminina.
A escrita também dialoga com referências culturais e literárias que atravessam a formação da escritora, como Clarice Lispector, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade e Paulo Leminski, além de elementos do universo cultural brasileiro, como o samba, o carnaval e o sertão. “Do ponto de vista estilístico, a fragmentação do ser reflete na fragmentação da escrita, pela presença de versos quebrados, repetições, deslocamentos visuais”, explica Marli.
Embora o livro dialogue com reflexões profundas sobre identidade, memória e opressão, Marli prefere abordar a recepção da obra com leveza. Para ela, a melhor forma de entrar em contato com Carnaverbo é abandonar expectativas.“Entrem de alma livre. É uma poética simples, beirando o prosaísmo, mas reconheço que é forte. As mulheres, de algum modo, se reconhecem”, observa a professora.
A relação da autora com a poesia, contudo, começou muito antes da carreira acadêmica. Marli conta que sua formação literária foi profundamente influenciada pela participação no Psiu Poético, tradicional encontro de poesia realizado em Montes Claros, do qual participa desde o final da década de 1980. Ainda adolescente, integrou a primeira geração do movimento que permanece ativa até hoje.
A experiência como professora e pesquisadora, afirma, veio depois ampliar esse percurso, aprofundando as reflexões que atravessam sua escrita e fortalecendo a poesia como um espaço de criação, memória e resistência.
Marli Silva Fróes é professora, escritora e pesquisadora do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) – Campus Diamantina. Possui graduação em Letras pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), mestrado em Linguística Aplicada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e doutorado em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
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