O Irã vive a sua maior crise política desde a Revolução de 1979. Nos últimos meses, muita gente foi às ruas protestar contra as condições do país. Mas os protestos foram brutalmente reprimidos, com milhares de manifestantes assassinados pelo regime.
A economia iraniana vai de mal a pior. A inflação é a terceira pior do mundo, atrás apenas de Venezuela e Sudão. A moeda local chegou ao fundo do poço, negociada a 1,5 milhão de riais por dólar no mercado informal – uma desvalorização de mais de 20 mil vezes desde 1979.
Menos de 2% dos domicílios iranianos relatam consumir alguma proteína diariamente. Só 2% das crianças consomem laticínios todo dia. Quase 2/3 da população acima dos 15 anos está fora da força de trabalho – pior: não trabalha, nem procura emprego. O Irã é uma nação continental, terra de uma das civilizações mais antigas do mundo. A sua autoridade máxima é conhecida como líder supremo. Desde 1989, o líder supremo do Irã se chamava Ali Khamenei.
No Irã, a figura do líder supremo é uma mistura de autoridade política e religiosa. Ali Khamenei é o chefe de Estado do Irã, mas também é o aiatolá – um título de autoridade usado na hierarquia religiosa do islamismo xiita. O cargo de líder supremo foi instituído no Irã em 1979 graças a um episódio central no Oriente Médio conhecido como Revolução Iraniana. Antes da revolução, o Irã, sob o comando de Mohammad Reza Shah Pahlavi, era um país bem diferente.
Mohammad Reza era um monarca que detinha o título de xá. Xá vem do persa e significa “rei”. O xá era o governante absoluto do Irã. Ele detinha o controle total sobre o poder executivo, legislativo e judiciário – o que significa que era o que nós chamamos de autocrata. Mas o xá, diferente do aiatolá, era aliado dos Estados Unidos e muitos persas entendiam que a proximidade dele com Washington gerava uma influência estrangeira excessiva na vida política e econômica do Irã.
É nesse contexto que acontece a Revolução Iraniana. Em 1979, um antigo desafeto do xá – o aiatolá Ruhollah Khomeini – liderou um movimento popular que transformou o Irã de uma monarquia absolutista pró-Ocidente numa teocracia islâmica xiita veementemente anti-Ocidente. É esse regime que vem sendo testado militarmente por Israel e Estados Unidos nesse momento.
O que acontece agora que americanos e israelenses assassinaram o aiatolá? E se o presidente do Irã for morto também? No papel, a Constituição iraniana prevê mecanismos de sucessão. Se o presidente morre, o primeiro vice-presidente assume e um conselho organiza novas eleições em até 50 dias. Se o líder supremo morre, a Assembleia de Especialistas se reúne para escolher um novo líder “no menor tempo possível”, e um conselho interino assume as funções nesse intervalo.
Mas existe um problema: se o líder supremo e o presidente morrem ao mesmo tempo – e sob bombardeio estrangeiro –, esses procedimentos podem não valer muita coisa. A sucessão presidencial, por exemplo, precisa formalmente da aprovação do líder supremo. Se ele não está vivo, quem aprova?
A revolução de 1979 derrubou um regime que dependia de um exército profissional. Para os aiatolás, isso deixou uma lição bem evidente: se você concentra o monopólio das armas num corpo militar tradicional, cria um candidato natural a árbitro do poder – que pode se voltar contra você a qualquer momento. As Forças Armadas do Irã são conhecidas como Artesh. Elas existem desde antes da Revolução e foram mantidas pelos aiatolás. Mas, desde a Revolução, um dos pilares do regime iraniano é a Guarda Revolucionária Islâmica.
A Guarda não é um exército convencional – é uma força militar e política criada para proteger os ideais da revolução. Ela tem os seus próprios soldados, a sua própria marinha, a sua própria força aérea e até um braço econômico que controla grandes empresas iranianas. No fim, é a lealdade da Guarda Revolucionária ao líder supremo que sustenta o regime. A Guarda Revolucionária não é apenas o braço militar do regime – é o seu esqueleto. Entre as suas inúmeras funções está manter debaixo do seu guarda-chuva a milícia Basij, uma rede paramilitar com centenas de milhares de voluntários espalhados pelo país, indispensável para o regime.
Se, após os ataques, a Guarda Revolucionária permanecer unida, o Estado iraniano provavelmente sobrevive, ainda que debilitado. Se a Guarda rachar – com comandantes regionais seguindo ordens diferentes, e facções disputando poder –, aí o cenário é bem diferente. É essa variável que define qual dos caminhos possíveis o Irã seguiria após a morte do aiatolá. Somente o tempo nos dirá como será o futuro do Irã e do Oriente Médio após os ataques recentes dos Estados Unidos e Israel.
Gustavo Mameluque. Jornalista. Colaborador do Novo Jornal de Notícias e da Revista Tempo. Correspondente do L’ Oservatore Romano para o Brasil.
Compartilhe:
