Pietro Palazzini lavava pratos na cozinha do Vaticano quando os gritos atravessaram as paredes. Era 16 de outubro de 1943. Roma, ocupada pelos nazistas havia apenas cinco semanas, estava prestes a testemunhar um dos seus dias mais sombrios. Pietro correu até a janela — e o que viu jamais o abandonaria. Caminhões militares bloqueavam as ruas estreitas do bairro judeu. Soldados das SS arrastavam famílias para fora das casas. Crianças gritavam pelos pais enquanto eram empurradas para os veículos. Idosos tropeçavam com as mãos amarradas atrás das costas. Mais de mil pessoas foram levadas naquela manhã. Dois dias depois, os comboios partiram para ‘Auschwitz concentration camp’. Apenas dezesseis regressariam.

Pietro Palazzini não conseguia parar de pensar naqueles que tinham escapado. Nos que estavam escondidos. Nos que respiravam com medo dentro de uma cidade vigiada por botas e silêncio. Naquela noite, ele tomou uma decisão que mudaria destinos
Mas Pietro não conseguia parar de pensar naqueles que tinham escapado. Nos que estavam escondidos. Nos que respiravam com medo dentro de uma cidade vigiada por botas e silêncio. Naquela noite, ele tomou uma decisão que mudaria destinos. O seminário, a poucas ruas da rusga, tinha paredes espessas, quartos vazios e algo raro naquela Roma ocupada: a proteção simbólica do Vaticano. Pietro começou em segredo, conversando com outros padres. Logo chegou a primeira família — exausta, faminta, desesperada. Ele levou-a a um quarto no terceiro andar e disse:
“Aqui estão seguros”.
Mesmo sabendo que segurança, naquele tempo, era apenas uma esperança frágil. Vieram mais famílias. Os Rosenberg. Os Cohen. Os Segre. Cada uma carregando medo, poucas malas e um passado que precisava desaparecer para sobreviver. O seminário transformou-se em refúgio clandestino. Quartos viraram lares improvisados. Depósitos tornaram-se cozinhas. Crianças aprenderam a brincar em silêncio.
Mas esconder não bastava. Era preciso dar-lhes novas identidades.
Pietro nunca tinha falsificado nada. Ainda assim, à luz de velas, estudou certificados de batismo e aprendeu a reproduzi-los com precisão. Apagava nomes. Inventava histórias. Criava vidas novas para salvar as antigas. Os Rosenberg tornaram-se Romanos. Sarah Cohen tornou-se Maria Colombo.
Cada documento era um risco mortal. Se descoberto, significaria prisão — ou execução.
O inverno chegou duro. A comida escasseava. O frio invadia os corredores de pedra. Bebês choravam abafados nos braços das mães. Febres espalhavam-se. O medo era constante.
Mas eles estavam vivos. Em fevereiro, Pietro soube de uma rusga em San Lorenzo: doze famílias descobertas, deportadas. Homens que ele conhecia tinham tomado a mesma decisão que ele — e pagado o preço.
Naquela noite, o medo quase o quebrou. Pensou em desistir. Pensou em mandar todos embora antes que fosse tarde. Então a pequena Sarah — agora Maria — entregou-lhe um desenho: o seminário, com duas palavras escritas abaixo: “casa segura”.
Pietro guardaria esse papel pelo resto da vida. Na primavera, a esperança começou a infiltrar-se nos corredores. As forças aliadas aproximavam-se. Pela primeira vez, as famílias sussurravam sobre o “depois”. Em 4 de junho de 1944, tanques americanos entraram em Roma. Pietro ficou à porta enquanto as famílias saíam para a luz do sol após oito meses de sombras. Houve lágrimas, abraços, promessas de memória eterna. Trinta e sete pessoas entraram como fugitivas. Saíram como sobreviventes. Depois da guerra, Pietro voltou à rotina discreta: ensinar seminaristas, cumprir tarefas simples, viver sem alarde. Vieram promoções e, em 1973, foi nomeado cardeal pelo Papa Paulo VI.
Ele raramente falava da guerra. Mesmo chamado de herói, permanecia silencioso, carregando memórias que não cabiam em palavras: passos no corredor, papéis escondidos no bolso, rostos que não chegaram a tempo.
Em 1985, Israel reconheceu-o como Justo entre as Nações. Encontrou sobreviventes que havia protegido — agora adultos, segurando filhos e netos, vidas inteiras nascidas de um ato de coragem.
“Só fiz o que qualquer pessoa deveria fazer”, disse.
Mas a verdade é outra.
A maioria não arrisca a vida por estranhos. A maioria não transforma o próprio local de trabalho em refúgio. A maioria não cria identidades novas enquanto o perigo ronda a porta.
Pietro Palazzini morreu em 2000, aos 88 anos, mais de meio século depois daquele dia em que os caminhões avançaram para Auschwitz.
No seu funeral, não foram títulos que falaram mais alto. Foram famílias. Filhos e netos cujos nomes verdadeiros um dia tinham sido sussurrados atrás de portas fechadas.
Falaram de um jovem padre que escolheu coragem quando o silêncio era mais seguro. Que abriu a porta quando o mundo se fechava. Que salvou trinta e sete vidas — e todas as gerações que vieram depois.
Pietro nunca soube se tinha salvado o suficiente. Pensava muitas vezes nos que não chegaram. Mas trinta e sete pessoas viveram. E os filhos dessas pessoas viveram.
E os netos também. Às vezes, a história não é feita por multidões. É feita por alguém que escuta um grito, olha pela janela — e decide não virar o rosto.
Gustavo Mameluque. Jornalista. Colaborador do Novo Jornal de Notícias e da Revista Tempo. Correspondente do L’ Oservatore Romano para o Brasil. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros-MG.
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