Ilíada e Odisseia são dois poemas escritos no século IX ou VIII a.C. e atribuídos a um poeta grego, cego e talvez lendário, Homero. Ilíada deriva seu nome de Illion, nome grego para a cidade de Tróia. Odisseia deriva de Odisseu, o personagem principal do poema. A Ilíada narra o cerco à cidade de Tróia (na costa do Mar Egeu, em território da atual Turquia), que teria ocorrido em 1250 a.C. na época da civilização micênica. O foco central são as façanhas do herói aqueu Aquiles e seu feroz combate contra Heitor, príncipe de Tróia. A Odisseia fala sobre o retorno do herói aqueu, Odisseu, ou Ulisses, ao seu reino após a queda de Tróia. O retorno dura dez anos durante os quais Ulisses passa por toda sorte de acontecimentos e aventuras. Ilíada e Odisseia são duas grandes epopeias fundadoras da literatura grega antiga. Desde os tempos antigos, inspirou interpretações e outras obras, como o poema Eneida, de Virgílio, do século I a.C.Os poemas continuaram a inspirar artistas, romancistas, dramaturgos e cineastas.
A Iliada é um poema de guerra, onde as mulheres praticamente não têm vez e só aparecem como despojos de batalha ou esposas chorosas. Já a Odisseia é um poema doméstico, onde, através das andanças de Odisseu, entramos na intimidade de várias casas e palácios gregos, onde reinam as mulheres, boas ou malvadas, mortais ou deusas.
Penélope, esposa de Odisseu, talvez seja o mais perfeito retrato de uma mulher em toda a literatura grega; Nausicaa, a princesa que resgata Odisseu, que gostaria de casar com ele e cuja ilha some da história por tê-lo resgatado; Calipso, a deusa que queria tê-lo consigo e tem que abrir mão dele; Circe, deliciosamente malvada, transformando homens em porcos, mas que não consegue resistir aos charmes de Odisseu (criando assim o eterno clichê da vilã que se apaixona pelo heroi); as sereias, cujo silêncio pode ser pior que o canto, ou assim nos ensina Kafka; Euricleia, a velha empregada que reconhece Odisseu por uma cicatriz na perna, em uma cena magistralmente analisada por Auerbach, em Mimesis; e até mesmo Helena de Troia, em um de seus retratos mais generosos e compassivos da literatura grega.
Para muitas pessoas estudiosas, tanta empatia pelas mulheres teria sido inconcebível vindo do mesmo autor da Ilíada, um poema tão profundamente masculino e que tanto ignora as mulheres. Por isso, levanta-se a pergunta: terá a Odisseia sido escrita, ao menos parcialmente, por uma mulher?
A temível ilha habitada pelas sereias – cujo exuberante canto atraía e levava à morte todos os marinheiros que passavam nas proximidades, tragados pelo tempestuoso mar local – era ponto de passagem obrigatório para Odisseu (ou Ulisses, na versão latina) na sua viagem de volta ao seu reino, Ítaca, após ter vencido a longa Guerra de Tróia. Conhecendo o perigo mortal daquele canto, o astuto e curioso guerreiro grego criou um estratagema para evitar a morte dele e de seus companheiros e, ao mesmo tempo, ouvir o som divino: colocou cera nos ouvidos dos remeiros e ordenou que ele fosse amarrado ao mastro do navio. Dessa forma, ele poderia navegar próximo à ilha e apreciar incólume o canto das sereias. A Ulisses foi prometida a vida eterna. Se permanecesse na ilha. Mas preferiu continuar a sua longa viagem de volta à casa. Mas como mortal. Preferiu não ser mais um Deus. Afrodite ou Calypso tentaram, enquanto puderam, seduzir Ulisses e forçá-lo a ficar. Em troca teria a imortalidade.
Na política, e nas nossas mais importantes decisões, também nos deparamos com o “canto da sereia”. Primeiro atrai, depois aniquila aquele desatento que se submeteu ao “canto da sereia”. O canto é realmente atraente. A noite de prazer, também irresistível. Mas e o dia seguinte?! As sereias afogam os desatentos nas águas fundas do mar.
Essa célebre e imortal passagem registrada no canto 12 da Odisseia, monumental obra da literatura grega atribuída a Homero, se repete hoje quando devemos colocar ceras nos nossos ouvidos para não escutar o canto do consumismo exagerado e das tentações do marketing, da publicidade e dos influencers. Os influencers são os mais nefastos. Pois envolvem milhões de seguidores e ficam cada vez mais ricos com a ignorância humana. É a cultura da rede social matando aos poucos a cultura geral, a história e a geografia. Mata também o bom senso.
Gustavo Mameluque. Jornalista. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. Colaborador do Novo Jornal de Notícias e da Revista tempo.
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