Lançado pela Netflix na semana passada, O Falsário é um thriller italiano ambientado na Roma dos anos 1970 que mistura crime, política e drama psicológico. Inspirado livremente em personagens reais da história italiana, o filme acompanha Toni, um artista talentoso que passa a usar seu dom para a falsificação em um contexto cada vez mais perigoso, envolvendo grupos criminosos, disputas ideológicas e interesses do Estado.
Com uma narrativa densa e atmosfera sombria, a produção constrói sua tensão menos pela ação e mais pelas escolhas morais de seus personagens. O desfecho, em especial, transformou o longa em assunto recorrente entre o público, justamente por não oferecer uma conclusão confortável ou redentora.
O roteiro mistura ficção com realidade, tendo como pano de fundo o sequestro e morte do político italiano Aldo Moro pelas “Brigadas Vermelhas” em 1978, na Itália.
Durante 55 dias, de março a maio de 1978, a Itália acompanhou com angústia a provação de Aldo Moro. O líder do poderoso Partido Democrata Cristão – cinco vezes primeiro-ministro, duas vezes ministro do Exterior e líder nas pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais marcadas para dezembro daquele ano – foi sequestrado em 16 de março por um comando das Brigadas Vermelhas a caminho da Câmara dos Deputados.
O veterano político de 62 anos, 32 dedicados à vida pública, era a mais alta autoridade a cair nas mãos da organização terrorista de extrema esquerda, que desde sua criação, em 1970, promovia atentados, assassinatos e sequestros no país. Em troca de Moro, exigia-se a libertação de 13 líderes das Brigadas detidos nas prisões italianas.
O governo mobilizou 50 mil policiais, mas se recusou a negociar com os captores. Enquanto os brigadistas divulgavam comunicados anunciando que Moro estava sendo “julgado”, personalidades internacionais tentavam interceder. Alguns, como o Papa Paulo VI, do alto de sua condição de líder espiritual; outros, como Muamar Kadafi, no papel de presidente da Líbia e aliado do pequeno clube do terrorismo internacional. Em vão. O sexto e último comunicado das Brigadas Vermelhas informava que Aldo Moro fora condenado à morte.
A cena que estrutura toda a narrativa do filme é revisitada no final: um homem caminha sob a chuva, entra em um carro e é assassinado. Ao longo da história, o público é levado a acreditar que aquela é a morte de Toni. No entanto, o desfecho revela que o homem morto não é o protagonista, mas sim Vittorio, seu amigo mais próximo.
Toni forja a própria morte usando o mesmo talento que o consagrou no submundo da falsificação. Ele manipula circunstâncias, aparências e expectativas para convencer todos ao seu redor de que está morto, enquanto, na realidade, foge de Roma com Donata e o dinheiro que conseguiu acumular. A morte funciona como sua obra final, uma falsificação perfeita, aceita sem questionamento por criminosos, autoridades e antigos aliados.
Embora o plano seja bem-sucedido do ponto de vista prático, o filme deixa claro que não se trata de uma vitória moral. Toni sobrevive, mas o faz ao custo da vida de outra pessoa e da destruição definitiva de qualquer vínculo ético que ainda o conectava ao mundo que deixou para trás.
O uso de Vittorio como peça-chave do plano é especialmente simbólico. Apresentado ao longo do filme como alguém dividido entre fé, ambição e frustração pessoal, Vittorio representa uma integridade frágil, que acaba cedendo às pressões do poder. Sua morte não é apenas um erro de cálculo, mas o resultado direto de um ambiente em que todos são manipuláveis e descartáveis.
Mais do que explicar quem vive ou quem morre, o final de O Falsário propõe uma leitura mais profunda sobre identidade. Toni começa o filme como um artista invisível, alguém que deseja reconhecimento. Ao longo da narrativa, ele troca a criação pela cópia, a autoria pela falsificação, até chegar ao ponto em que falsifica a si mesmo.
Ao desaparecer, Toni conquista a sobrevivência, mas perde qualquer possibilidade de autenticidade. Ele não é mais um artista, nem um criminoso famoso, nem um homem comum. Torna-se um fantasma, alguém condenado a viver sem passado, sem nome e sem obra. O filme sugere que essa é a punição silenciosa.
Brilharam no elenco italiano Pietro Castellitto e as belíssimas e talentosas atrizes Giulia Michellini e Aurora Giovanazzi. Direção do cineasta italiano Stegano Lodovich. Vale a pena conferir!!!
Emoção do começo ao fim.
Gustavo Mameluque. Jornalista. Crítico de Cinema. Colaborador do Novo Jornal de Notícias e da Revista Tempo.
Compartilhe:
