Pecê Almeida Jr. (*)
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL), mais votado da história de Minas Gerais e também o mais votado do Brasil nas últimas eleições, abriu o ano eleitoral em que tentará a reeleição para a Câmara dos Deputados com uma caminhada de Paracatu a Brasília, que movimentou o noticiário político nos últimos dias. O objetivo público era reunir apoiadores da extrema direita para pedir liberdade a Jair Bolsonaro, o ex-presidente preso por tentar um golpe de Estado após perder as eleições de 2022, quando se tornou o primeiro presidente, desde a implantação da reeleição, a não conseguir um segundo mandato.
Mas Nikolas iniciou e terminou a caminhada sabendo que seu pleito não seria atendido. Não existe clima social nem político para a liberação de Bolsonaro. Todas as pesquisas sérias realizadas nos últimos meses mostram que a maioria da população brasileira é contra não apenas a soltura do ex-presidente, como também contra qualquer projeto de anistia aos seus crimes e aos de quem participou da intentona golpista. Nikolas caminhou à toa, então? Claro que não.
Inteligente, pelo menos na leitura política, e perspicaz, características reconhecidas até por quem não concorda com ele em absolutamente nada, Nikolas sabe que o espólio da direita brasileira em breve estará em disputa e quer tomá-lo para si.
Bolsonaro, o primeiro líder carismático desse campo no país desde Carlos Lacerda, já tem 70 anos, está preso, inelegível e não será candidato à Presidência em 2026. Para tentar se manter em evidência, decidiu lançar o filho Flávio Bolsonaro como seu candidato, mesmo com outros nomes da direita, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, apresentando hoje melhores condições de enfrentar Lula. Dediquei, inclusive, um artigo inteiro anteriormente a essa análise.
Se Lula for reeleito e Bolsonaro permanecer inelegível por um longo período, a direita precisará de um novo líder. Os números de Nikolas nas urnas e nas redes sociais são estratosféricos e o credenciam para esse papel. A caminhada mostrou que ele também sabe mobilizar nas ruas.
Nikolas domina como poucos três grandes vetores que hoje movimentam a extrema direita brasileira: a base pentecostal e neopentecostal das igrejas evangélicas somada à maior parte da Renovação Carismática Católica; o universo dos coaches, influenciadores de empreendedorismo, vendedores de pirâmides multiníveis e defensores do mito do “self made man”; e o grupo formado por pessoas que acreditam que suas vidas não melhoram porque o Estado protege demais as minorias, que estariam ocupando espaços que deveriam ser deles. Ele mistura tudo isso e entrega um concentrado ideológico de “Deus, pátria e família” ao chamado “cidadão de bem”.
Nikolas caminhou pensando em 2026, na própria reeleição, e esse movimento, por si só, certamente já lhe renderá outra votação expressiva; em 2030, quando ainda não terá idade mínima para disputar a Presidência, e tende a concorrer ao Governo de Minas como vitrine para, enfim, tentar o Palácio do Planalto em 2034. O plano é esse, embora na política sempre existam pedras no caminho, muitas vezes grandes e imprevisíveis.
Chama atenção que, com exceção de Michelle Bolsonaro, que nunca demonstrou entusiasmo pela candidatura do enteado Flávio, já que deseja ser vice e dificilmente uma chapa será composta por dois membros da mesma família, nenhum outro integrante do clã Bolsonaro aderiu com força à caminhada de Nikolas. Eles sabem o que está em jogo.
Apenas Carlos Bolsonaro esteve presente, de olho na própria candidatura ao Senado por Santa Catarina. Mesmo assim, produziu um vídeo manipulado no qual substituiu o canto real de “eu sou brasileiro, com muito orgulho” por um artificial “volta Bolsonaro”, numa tentativa de reduzir o protagonismo de Nikolas e manter o pai em evidência.
Diante das câmeras, todos parecem unidos. Nos bastidores, porém, Nikolas quer o cetro, a coroa e o trono que hoje ainda pertencem a Jair Bolsonaro. Pelo caminho que vem trilhando, tem grandes chances de conquistá-los.
(*) Jornalista e Publicitário. Diretor da Drops Marketing Político e da Network Pesquisas.
Compartilhe:
