O cenário eleitoral deste início de 2026 é o seguinte: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera a corrida ao Planalto e o adversário mais forte para enfrentá-lo é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). A constatação está nas pesquisas, mas não é suficiente para demover o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) da ideia de disputar a presidência da República.
Parte dos integrantes do próprio PL considera a decisão de Flávio “teimosia”. Mas representantes do centro-direita que figuram nas altas rodas de partidos como PSD, MDB e União Brasil avaliaram que três fatores são determinantes para o filho zero-um do ex-presidente Jair Bolsonaro insistir na sua candidatura. São eles: frear o avanço político da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF); “cortar as asas” de Tarcísio de Freitas para evitar que ele voe alto e se descole do bolsonarismo; e manter o nome da Família Bolsonaro na cena política nacional.
No dia 25 de dezembro, o senador leu um carta, assinada por seu pai, confirmando que Flávio seria seu pré-candidato para a disputa pelo Palácio do Planalto em outubro. Mas isso não mudou o cenário. Tarcísio de Freitas, que por ora está decidido a concorrer à reeleição no Palácio dos Bandeirantes, continua sendo o nome com mais força para enfrentar a esquerda petista.
Pesquisa elaborada pela plataforma de jornalismo Meio e o Instituto Ideia, divulgada na semana passada, por exemplo, mostra Lula à frente de todos os adversários tanto no primeiro quanto no segundo turno. A exceção é que Tarcísio empata com Lula no segundo turno, se considerada a margem de erro.
O petista leva vantagem sobre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro e outros governadores de direita, como Ratinho Júnior (PSD), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (União Brasil) e Eduardo Leite (PSD).
Em um dos cenários de primeiro turno testados, Lula registra 40,2% e Tarcísio 32,7%. Quando o governador é substituído por Flávio, o petista registra 39,7% contra 26,5% do filho do ex-presidente.
Semana passada, a Quaest divulgou novo levantamento sobre a corrida ao Planalto já demonstrando o crescimento da candidatura do senador Flávio Bolsonaro e a dianteira do Presidente Lula. Na referida pesquisa, Flávio Bolsonaro cresce e se consolida na segunda posição. Lula aparece com 36% das intenções de voto, Flávio Bolsonaro surge em segundo lugar com 23% e o governador Tarcísio de Freitas vem em terceiro com 9%.
Interessante que se somarmos os 23% de Flávio Bolsonaro com os 9% do governador, a direita crava um percentual significativo de 32%, quase empatando com o presidente Lula, se considerarmos a margem de erro da pesquisa. Motivo de entusiasmo do senador Flávio e de todos os apoiadores do ex-presidente Bolsonaro. Ou seja, o país continua dividido. E bastante dividido.
No entanto, somando os 36% de Lula e os 32% da direita e centro-direita, Felipe Nunes nos informa que ainda restam 32% de votos a serem disputados no decorrer da campanha eleitoral. Sendo que 10% admitem anular o voto ou não comparecer para votar. Resumo da ópera: apenas 22% do eleitorado está indeciso em quem vai votar. E este grupo está exatamente no centro ideológico ou mesmo no desinteresse ideológico.
Integrantes de setores econômicos e do centrão, que monitoram trackings permanentemente, acreditam que Flávio consolidará seu crescimento nas intenções de voto. Isso tornará ainda mais difícil eventual recuo.
Além disso, com os movimentos que fez no final do ano, em encontros com representantes de setores econômicos, Flávio conseguiu ganhar musculatura política e recebeu até promessas de apoio de integrantes do mercado financeiro para seu caixa de campanha. Lado outro, as ações do presidente Trump na Venezuela podem favorecer o campo da direita nas eleições vindouras.
Flávio já prometeu ir mais para o centro para aglutinar apoios além do bolsonarismo-raiz e reduzir sua rejeição na maioria do eleitorado. Mas seu sobrenome funciona como um ímã para o radicalismo. E ele terminou reforçando essa leitura ao sinalizar que poderia tornar o irmão Eduardo seu ministro das Relações Exteriores. Sofreu reprimenda; já teria reconhecido o erro e agora buscará ajustar o discurso novamente. É o famoso “frei de arrumação”, que já está ocorrendo nas campanhas do presidente Lula à reeleição e a do senador Flavio Bolsonaro, que busca consolidação.
* Gustavo Mameluque. Jornalista. Escreve no Jornal de Notícias e na Revista Tempo. Comentarista Convidado de Esportes da
Rádio Terra de Montes Claros.
