Pecê Almeida Jr. (*)
Quando Jair Bolsonaro, da cadeia, lançou seu filho Flávio como candidato à Presidência da República em 2026, muitos entenderam como blefe. A opinião geral era de que Jair estava forçando uma negociação com o Centrão e a extrema direita, visando à aprovação de uma anistia para os seus crimes ou mesmo de uma melhor dosimetria, que garantisse uma significativa redução de pena. Essa opinião foi reforçada por uma declaração do próprio Flávio Bolsonaro, que chegou a dizer que a retirada de sua pré-candidatura teria “um preço”.
Pois bem, pressão feita, o tal PL da Dosimetria foi rapidamente aprovado, quase que a toque de caixa, na Câmara dos Deputados e no Senado, mesmo que a contragosto da maioria da população, segundo todas as pesquisas de opinião que avaliaram o tema. E, após a aprovação, o que Jair Bolsonaro fez? Reafirmou a candidatura de Flávio, que, a esta altura, já demonstra, segundo os mesmos institutos de pesquisa, muito mais musculatura que o candidato preferido do Centrão, da Faria Lima, da mídia hereditária e do grande latifúndio: o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Vale ressaltar que Tarcísio não é muito diferente de Bolsonaro. Foi seu ministro o tempo todo. Riu das piadas do ex-presidente sobre a pandemia, ao vivo, no momento mais crítico da vida sanitária brasileira. Foi 100% eleito por Bolsonaro para governar um estado onde nunca tinha morado antes (justamente o mais rico estado da federação) e já demonstrou sua lealdade a Jair em todas as ocasiões possíveis. A diferença prática é que Tarcísio é um tanto mais polido que Jair, e essa pequena polidez, que não é uma polidez a mais, por Jair não ter nenhuma, já lhe garante uma rejeição menor junto ao eleitorado que só analisa livros pela capa. E essa menor rejeição, numa eleição de dois turnos que costuma ser mais de vetos do que escolhas, faria de Tarcísio um candidato mais viável que Flávio, o que tem todo sentido.
Bolsonaro sabe, porém, que, se apoiar Tarcísio para presidente, perderá terreno no seu campo. Ele é o primeiro líder carismático da direita brasileira, pelo menos desde Carlos Lacerda. Ocupou um espaço que parecia inabitável e angariou para si mais de um terço do eleitorado brasileiro, que o acompanha de olhos fechados, independentemente de ele estar, como agora, preso e inelegível. Ganhando ou perdendo para presidente em 26, Tarcísio, e não Bolsonaro, se este o apoiasse, é que seria o candidato favorito para 30 e, até pela força econômica dos seus apoiadores, concentraria a maior parte dos holofotes da direita para si.
Sem os votos de Bolsonaro, a candidatura presidencial de Tarcísio, ou de qualquer outro nome que o consórcio Centrão-Faria Lima-donos da mídia-latifúndio possa inventar, não sai do chão. Os 30% fiéis de Bolsonaro são fundamentais para a largada da direita. Sem eles, uma candidatura solo de Tarcísio estaria fadada a repetir Geraldo Alckmin em 2018, quando o atual vice-presidente teve todos esses apoios que Tarcísio está tendo agora, mas terminou sufocado pela polarização PT x extrema direita.
Ademais, o consórcio do sistema, se insistir com Tarcísio contra a vontade de Bolsonaro, pode perder não só o Palácio do Planalto, como o próprio governo de São Paulo, já que o grupo do governador não possui um substituto natural com densidade eleitoral para vencer o pleito, enquanto uma reeleição do próprio Tarcísio é bem mais possível. “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando”, é assim o ditado?
Portanto, diante de todo esse cenário, eu cravaria que, a menos que uma hecatombe aconteça, há 99% de chances de Flávio Bolsonaro ser candidato mesmo a presidente, mesmo sendo obrigatório considerar aquele 1% vagabundo, como diria o filósofo moderno Wesley Safadão. Tarcísio tem mais chances que Flávio de ser eleito presidente numa eleição que certamente terá dois turnos, mas Jair, analisando sob o seu ponto de vista, está tomando a decisão certa.
(*) Jornalista, publicitário e escritor. Diretor da Network Pesquisas e da Drops Marketing Político.
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