DECEMBER 9, 2022

A filosofia do Padre Henrique Vaz

Por Gustavo Mameluque*   Em “Escritos de Filosofia VII: Raízes da modernidade”, H. C. de Lima Vaz desenvolve a hipótese de que a chamada modernidade, entendida como universo simbólico das razões que configuram, a partir do século XVI, uma nova idade na história intelectual do Ocidente, encontra algumas de suas raízes, sobretudo as de natureza metafísica, nas controvérsias […]

Padre Henrique Vaz

Por Gustavo Mameluque*

 

Em “Escritos de Filosofia VII: Raízes da modernidade”, H. C. de Lima Vaz desenvolve a hipótese de que a chamada modernidade, entendida como universo simbólico das razões que configuram, a partir do século XVI, uma nova idade na história intelectual do Ocidente, encontra algumas de suas raízes, sobretudo as de natureza metafísica, nas controvérsias doutrinais de fins do século XIII. A história das ideias é posta, pois, a serviço de uma leitura interpretativa e crítica da modernidade. Portanto iremos falar um pouco sobre um dos maiores filósofos de Minas, o Padre Henrique Lima Vaz, Ex-Reitor da Universidade Federal de Minas Gerais e Professor Catedrático de Filosofia daquela instituição de ensino superior. Seu trajeto filosófico estende-se por toda a filosofia ocidental, num arco que vai de Platão até o exame da modernidade mais recente, sobre a qual versa seu último livro, Raízes da Modernidade, que não chegou a ver impresso, pois saiu da editora no exato dia em que morreu. Mas que tive a felicidade de encontrar em um “sebo” da Rua Rio de janeiro em Belo Horizonte, onde passei os dois últimos finais de semana; a despeito do fechamento de várias atividades comerciais, inclusive as livrarias; por não serem essenciais (sic). Isto mesmo.

O conhecimento da metafísica grega, aliada ao estudo dos autores cristãos, deu a seu pensamento a densidade necessária para enfrentar o criticismo moderno. Dois autores despontam como referência obrigatória: Santo Tomás de Aquino, espécie de norte magnético a indicar a direção, e Hegel, esse novo Aristóteles que se aventura a rememorar toda a cultura ocidental.

Os conturbados anos 1960 da vida brasileira fizeram-no compreender as urgências da política e impuseram-lhe a tarefa de uma leitura crítica e cristã do pensamento marxiano. Para entender o mundo moderno, aconselhava Hegel, substitua-se a prece matutina pela leitura dos jornais; Vaz corrige o mestre alemão: a leitura após a prece dará, sem dúvida, frutos melhores. A juventude católica não haveria de renunciar à fé pela política, deveria antes dar o testemunho da fé na própria militância política. Seus escritos daquela época não deixam dúvida quanto a esta opção definitiva. Em sua última entrevista, Padre Vaz fala de sua participação política naqueles anos, do trabalho com a Juventude Universitária Católica (JUC) e com o Movimento de Educação de Base, bem como de textos, como Cristianismo e Consciência Histórica, de 1961, que exerceram considerável influência nos movimentos cristãos, embora, modestamente, dissesse que “eram textos de reflexão, não de ação”. Os estudos sobre Hegel desenvolvem-se a partir de 1970, na UFMG, através de uma série de cursos sobre o filósofo da Fenomenologia do Espírito, que se estenderam até sua aposentadoria, em 1987. Neste exato ano assisti a uma Palestra do Padre Vaz no Teatro Marília sobre a dialética  de Hegel e a transformação da sociedade contemporânea. Inesquecível. Guardo até hoje todas as anotações daquela noite memorável. Ele falou durante quase três horas sem que nenhum dos presentes  se distraísse. Era muita erudição e cultura juntos. Despedia-se de todos nós presentes.

Tão importantes quanto os estudos sobre Hegel são os livros que publicou nos últimos anos: a série dos Escritos de Filosofia, em cinco volumes, sendo três sobre ética; os dois volumes sobre Antropologia Filosófica; e o breve, mas substancial Experiência Mística e Filosofia na Tradição Ocidental. Por fim, o livro póstumo ao qual já me referi: Raízes da Modernidade.

A filosofia crítica de Kant formulou três perguntas fundamentais: Que posso saber? Que devo fazer? Que posso esperar? A primeira é teórica e deve ser respondida pela ciência; a segunda, prática, deve ser respondida pela filosofia (ética); a terceira, religiosa, só pode ser respondida pela fé. Resumiu as três questões numa única: Quem é o homem?

. A Antropologia Filosófica culmina num capítulo sobre a categoria de pessoa, articulada entre o tempo e a eternidade. A demonstração filosófica não vai além da indicação de um caminho transcendente que o homem deve percorrer.

A antropologia filosófica culmina no conceito de homem como pessoa e espírito, deixando claro que o espírito é uma exigência que não se satisfaz com qualquer determinação finita. E que a alma também se constrói desde o nascimento do corpo com muito estudo, progresso, resiliência e aperfeiçoamento. Conceitos e valores que o Padre Vaz tão bem nos ensinou.

Desejo a todos um feliz e próspero 2026!!!

 

*Gustavo Mameluque é Jornalista. Membro do Instituto Histórico e Geográfico  de Montes Claros. Colunista do montesclaros.com e do Novo Jornal de Notícias.

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