DECEMBER 9, 2022

Crianças indígenas morrem mais de câncer do que crianças brancas, negras e amarelas no brasil

Em artigo, a Dra. Tereza Fonseca destaca que questões biológicas, sociais, econômicas e culturais contribuem para a alta taxa de mortalidade de crianças e adolescentes indígenas com câncer no Brasil, que chega a 76,9%.

Foto: Divulgação

 

A Fundação Sara, referência em oncologia pediátrica no estado de Minas Gerais, chama atenção para as graves desigualdades no tratamento do câncer infantil entre crianças de povos originários no Brasil.

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), a taxa de mortalidade por câncer entre esse grupo é de 76,9 óbitos por milhão de crianças e adolescentes por ano, quase o dobro da média nacional, que registra 42,6 por milhão. Outros grupos raciais apresentam índices inferiores: crianças brancas acompanham a média nacional, crianças negras registram $38,9/milhão$ e crianças amarelas, $14,8/milhão$.

Apesar de regiões com maior presença de povos originários apresentarem menor incidência de novos casos de câncer infantojuvenil, essas áreas concentram algumas das maiores taxas de mortalidade, indicando deficiências no acesso ao diagnóstico precoce, tratamento oportuno e estrutura de saúde adequada.

Em artigo, a Dra. Tereza Fonseca, presidente da CONIACC, professora do curso de Medicina da Universidade Estadual de Santa Cruz e médica onco-hematologista pediatra, destaca que questões biológicas, sociais, econômicas e culturais contribuem para a alta taxa de mortalidade de crianças e adolescentes indígenas com câncer no Brasil, conforme aponta relatório desenvolvido pela CONIACC e SOBОРЕ.

 

“Os dados mostram uma taxa de mortalidade muito alta entre crianças e adolescentes indígenas com câncer no Brasil. Precisamos compreender o que está por trás desses números. Há fatores geográficos, socioeconômicos e culturais que dificultam o acesso ao diagnóstico e ao tratamento, mas também questões biológicas importantes”, destaca a Dra. Teresa.

 

Pesquisas recentes apontam que alterações genéticas em algumas populações indígenas aumentam a toxicidade de quimioterapias. Essa descoberta já começa a ser incorporada aos protocolos de tratamento de leucemia infantil, em parceria com o INCA, buscando ajustar doses e reduzir efeitos adversos em crianças e adolescentes indígenas.

 

“As soluções exigem a união de lideranças indígenas, profissionais de saúde e instituições científicas para construir um plano nacional de cuidado mais equitativo para essas crianças e adolescentes”, explica a presidente da CONIACC.

No estado de Minas Gerais, o Censo Demográfico de 2022 registrou 36.699 pessoas que se autodeclaram pertencentes a povos originários, correspondendo a cerca de 0,18% da população mineira. Deste total, 12.137 (33,07%) vivem em terras tradicionais, enquanto a maioria, 66,93%, reside fora dessas áreas, principalmente em zonas urbanas.

 

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Na região Norte de Minas, destacam-se: Terra Indígena Xakriabá: aproximadamente 8.009 habitantes; Terra Indígena Maxacali: cerca de 1.877 habitantes.

 

Embora não existam dados públicos recentes detalhando a mortalidade por câncer infantojuvenil entre povos originários apenas em Minas Gerais, a combinação de população expressiva, alta proporção de crianças e adolescentes e desigualdades estruturais sugere um risco elevado, seguindo o padrão nacional.

 

O Distrito Sanitário Especial Indígena de Minas Gerais e Espírito Santo (DSEI/MGES) disponibiliza dados demográficos pelo Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena (SIASI). Apesar de não apresentar taxas específicas de mortalidade infantil por câncer, o documento revela lacunas na estrutura de saúde voltada aos povos originários no estado: atendimento primário limitado, grandes distâncias entre comunidades e centros de referência, além de desafios logísticos próprios do caráter territorial desses povos.

Especialistas apontam alguns obstáculos críticos no Brasil: Maior sensibilidade a efeitos adversos de medicamentos em populações com ancestralidade originária, exigindo protocolos diferenciados; Comunidades de povos originários em áreas remotas enfrentam dificuldade de acesso a centros de referência; Falta de hospitais habilitados no Norte e Nordeste, exigindo deslocamentos longos; Barreiras socioculturais que dificultam adesão e continuidade do tratamento.

Ao olhar para o Norte de Minas, é preciso enxergar muito além do diagnóstico médico. Muitas crianças chegam aos serviços de saúde após atrasos significativos, resultado de longas distâncias geográficas, transporte precário e custos indiretos elevados, como hospedagem e alimentação para as famílias. Soma-se a isso a maior toxicidade aos tratamentos convencionais observada em populações com elevada ancestralidade de povos originários.

“Sem políticas públicas robustas que considerem essas especificidades, corremos o risco de perpetuar desigualdades profundas”, destaca a Dra. Juliana Cerqueira, hematologista pediátrica da Fundação Sara.

 

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Bianca Valentina de Oliveira – 7 anos.

Entre as histórias que refletem essa realidade está a de Bianca Valentina de Oliveira Rocha, uma criança Xakriabá, de São João das Missões, que enfrentou o câncer com o apoio da Fundação Sara.

Sua avó, Maria Aparecida de Oliveira Mota, relembra: “Nós somos da tribo Xakriabá, da aldeia Brejo Mata Fome. Bianca, de 7 anos, nasceu cercada da nossa cultura e dos nossos valores. Nossa trajetória mudou muito quando recebemos o diagnóstico. No início achamos que era algo simples, mas depois veio a confirmação: osteossarcoma. Foi um momento muito difícil. A Fundação Sara entrou na nossa vida como uma mãe, dando todo o suporte que a gente não teria condições de oferecer sozinhos. Graças à acolhida e à ajuda de tantas pessoas, Bianca pôde receber o tratamento necessário. Lembro bem do primeiro atendimento, logo após o Natal de 2021 fomos recebidos com muito carinho. Sou grata à Fundação Sara por cada passo dessa caminhada. Essa é uma história de luta, fé e raízes firmes no nosso povo Xakriabá”.

 

A deputada federal (PSOL/MG) Célia Xakriabá, representante do povo Xakriabá e uma das vozes mais atuantes na defesa dos direitos indígenas, também reforça a urgência de enfrentar o racismo estrutural que atravessa a saúde pública no Brasil.

“Quando uma criança indígena morre por falta de acesso à saúde, não é a biologia que explica, é, sobretudo, o abandono histórico do Estado. O câncer, entre nossos meninos e meninas, escancara como o racismo estrutural continua determinando quem vive e quem morre no Brasil. A doença não chega sozinha: ela vem junto da ausência de políticas públicas, da distância entre as aldeias e os hospitais, da falta de pesquisa que considere nossas especificidades e da negação do direito básico ao cuidado. Enquanto uma criança indígena tiver que viajar dias para fazer um exame, enquanto nossas famílias precisarem escolher entre o tratamento e o sustento, estaremos diante de um país que ainda não aprendeu a cuidar de suas origens. Cada vida indígena interrompida é também um futuro.

 

 

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interrompido, é um canto que se cala, uma semente que não floresce. Nossas crianças são a continuidade dos nossos povos, e quando o Estado nos nega saúde, ele tenta amputar o futuro. É urgente garantir que a ciência, a medicina e as instituições de saúde olhem para os corpos indígenas não como exceção, mas como parte essencial desse país. Nenhuma criança deve morrer por ser indígena, e nenhuma infância deve ser interrompida pelo descuido do Estado”.

 

De acordo com Álvaro Gaspar, fundador e presidente da Fundação Sara, embora Minas Gerais apresente números relativamente baixos em comparação a estados da Amazônia e do Nordeste, a vulnerabilidade dos povos originários em saúde infantil oncológica permanece crítica, especialmente no Norte do estado. Sem dados locais consistentes e políticas públicas direcionadas, muitas crianças com câncer continuarão a enfrentar desfechos que poderiam ser evitáveis.

 

“A Fundação Sara reforça seu compromisso em promover conscientização, fortalecer políticas públicas e ampliar o acesso a cuidados adequados, garantindo o direito à saúde de todas as crianças e adolescentes, com atenção especial aos povos originários”, afirma o presidente da instituição.

 

Sobre a Fundação Sara. A Fundação Sara foi instituída em junho de 1998, na cidade de Montes Claros/MG, com o intuito de oferecer amparo a todas as famílias da região com crianças e adolescentes com câncer. O desejo de criar uma instituição filantrópica nasceu no coração de Álvaro e Marlene, pais da pequena Sara, que durante mais de dois anos lutou para vencer a doença, mas infelizmente não resistiu. Quem acompanhou a história de luta da família se comoveu e se juntou à causa e, assim, a Instituição foi ganhando força. A missão de oferecer assistência social foi ampliada para outros eixos, como o trabalho de diagnóstico precoce, realizado na região; as significativas contribuições aos hospitais onde as crianças e adolescentes se tratam; e a criação de uma filial na capital mineira, em 2010. Em 27 anos de atuação, já são mais de 1.700 famílias amparadas.

 

Em 2018, 2020 e 2022 a Fundação Sara foi reconhecida pelo Instituto Doar e Rede Filantropia como uma das 100 Melhores ONGs do Brasil em gestão e transparência. Em 2022, a instituição foi contemplada com o Prêmio Integridade pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), comprovando sua atuação com boas práticas de gestão, governança, integridade e conformidade em Minas Gerais. Para saber mais sobre o trabalho da Instituição acesse www.fundacaosara.org.br.

 

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