O estado de São Paulo enfrenta uma séria crise de saúde e segurança pública após registrar a maior parte dos casos de intoxicação por metanol em bebidas alcoólicas no Brasil. Com 15 casos confirmados e 164 ainda sob análise (mais de 82% do total nacional), e a confirmação de uma terceira morte no estado, as autoridades correm para esclarecer as circunstâncias e restabelecer a confiança dos consumidores.
O Que é o Metanol e Por Que é Tão Perigoso
O metanol é um álcool de uso industrial, presente em solventes e produtos químicos. A ingestão acidental ou intencional é altamente perigosa. Ao ser processado pelo fígado, ele se transforma em substâncias tóxicas que atacam o cérebro, a medula e, criticamente, o nervo óptico, podendo levar à cegueira, coma e, em casos graves, à morte. Insuficiência pulmonar e renal também estão entre os riscos.
A perícia da Polícia Técnico-Científica de São Paulo já confirmou a presença de metanol em bebidas de duas distribuidoras, validando a gravidade da situação.
Linhas de Investigação e a Crise de Confiança
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, reforçou que a prioridade é integrar as ações do estado e da iniciativa privada para restabelecer a confiança, pois as empresas “sofrem muito” com o medo generalizado dos consumidores.
A Polícia de São Paulo trabalha com duas linhas principais de investigação para entender como o metanol está contaminando as bebidas:
- Limpeza Inadequada de Garrafas: O metanol pode ter sido usado na higienização de garrafas reaproveitadas que, por falha no processo, acabaram retornando ao envase de bebidas em vez de serem direcionadas à reciclagem.
- Adulteração para Aumento de Volume: A outra hipótese é que o metanol tenha sido usado intencionalmente para aumentar o volume de bebidas falsificadas. Há a possibilidade de que o falsificador pretendesse usar etanol puro, mas o produto estivesse contaminado com metanol.
O governador também adiantou que solicitará à Justiça a destruição imediata de garrafas, rótulos, lacres e selos apreendidos – mais de 7 mil garrafas suspeitas foram recolhidas na última semana – para evitar que o material caia novamente nas mãos de falsificadores.
Autoridades afastaram o envolvimento de grandes facções criminosas como o PCC, pois, segundo o governador, o negócio de adulteração de bebidas é considerado pouco lucrativo em comparação com o tráfico de drogas.
Quais Bebidas Estão em Risco e Como se Proteger
Os casos de intoxicação envolvem bebidas destiladas, principalmente vodca e gin – os destilados incolores são considerados de maior risco. Embora especialistas digam que cerveja, vinho e chope apresentam menor vulnerabilidade à adulteração, a recomendação é de cautela geral.
Atenção Redobrada para Consumidores:
O maior desafio é que o metanol é uma “substância traiçoeira”: não altera cor, odor ou sabor e só pode ser detectado em laboratório. Por isso, a prevenção é crucial.
Autoridades e associações de bares e restaurantes orientam a população a:
- Desconfiar de Preços Muito Baixos: Preços fora da média do mercado podem indicar produto ilegal ou adulterado.
- Comprar em Locais Conhecidos: Priorize estabelecimentos de confiança e exija sempre a nota fiscal.
- Observar a Embalagem: Fique atento a lacres tortos, rótulos mal impressos e selos fiscais de aparência suspeita.
A Abrasel (bares e restaurantes) também orienta que garrafas vazias sejam inutilizadas para evitar que falsificadores as reutilizem.
Em caso de consumo e surgimento de sintomas, a recomendação é procurar atendimento médico imediato e informar a origem da bebida para auxiliar na investigação policial.
A polícia Federal investiga
A Polícia Federal (PF) está investigando se o metanol que tem adulterado bebidas alcoólicas e causado intoxicações e mortes é proveniente de produto abandonado por criminosos após uma operação policial no setor de combustíveis.
O Ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, informou que a PF busca determinar a origem do metanol (se de combustível fóssil ou agrícola) para direcionar as ações repressivas. O Ministro não descartou a possível ligação do crime organizado com as falsificações, mesmo após o Governo de São Paulo (estado com mais casos) ter negado a relação.
O Governo Federal também planeja aumentar o controle sobre sites que vendem rótulos, lacres, tampas e garrafas usadas na falsificação, em uma ação coordenada entre a Secretaria Nacional do Consumidor, Ministério da Agricultura e Receita Federal.
Por fim, foi anunciada a criação de um Comitê de Enfrentamento, em parceria com a sociedade civil, para planejar ações repressivas contra os adulteradores e medidas protetivas para o setor legal de bebidas.
Compartilhe:
