SAIR DO BRICS É BOM PARA MINAS?
Na ânsia de se viabilizar como o candidato do bolsonarismo raiz à Presidência da República em 2026, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), tem adotado posicionamentos que eu diria “polêmicos”. Em artigo publicado na Folha de S. Paulo nesta quinta-feira (31), Zema defendeu a saída do Brasil do bloco dos BRICS. Antes disso, contrariando os preceitos constitucionais que definem o Brasil como um Estado laico, afirmou que o alinhamento do governo Lula com países que ele classificou como “não-cristãos” seria uma das razões para o tarifaço (que acabou se tornando uma “tarifinha”) imposto às exportações brasileiras pelo então presidente dos EUA, Donald Trump.
SAIR DO BRICS É BOM PARA MINAS? II
Segundo dados do próprio Governo de Minas, a China — que é, simultaneamente, o maior país “não-cristão” do mundo e a principal potência econômica dos BRICS — é também a maior compradora dos produtos exportados pelo estado, respondendo por 36,6% do valor total exportado por Minas Gerais. Já os Estados Unidos, país ao qual Zema, alinhado ao discurso bolsonarista, defende que o Brasil se submeta, foram destino de 11% das exportações mineiras — ou seja, menos de um terço do que se comercializa com a China. Minas também importa significativamente mais da China (25,7%) do que dos EUA (11,8%). Curiosamente, Araxá — cidade natal de Zema — foi o município mineiro que mais importou em 2024: R$ 2,3 bilhões em produtos siderúrgicos, com destino à… China!
SAIR DO BRICS É BOM PARA MINAS? III
Em um cenário em que o café ainda não foi excluído do tarifaço/tarifinha dos EUA, é importante lembrar que Minas Gerais está entre os maiores produtores de café do mundo. E sabe qual país aumentou em 4.000% a compra de café mineiro nos últimos 10 anos? A China. Isso mostra que, caso Trump não recue e mantenha o café na lista de produtos tarifados, o gigante asiático pode se tornar ainda mais relevante para a produção mineira. Vale lembrar também que, justamente no momento em que Zema declara animosidade contra o BRICS, seu governo, por meio do BDMG, pleiteia um empréstimo de R$ 1,1 bilhão junto ao banco dos BRICS — presidido pela mineira Dilma Rousseff (PT), ex-presidente da República.
SAIR DO BRICS É BOM PARA MINAS? IV
Minas Gerais também mantém relações comerciais relevantes com outros países do BRICS, como Índia, Rússia e África do Sul. Será que os industriais e representantes do agronegócio mineiro estão acompanhando, sob a ótica econômica — e não apenas política — essas recentes declarações do governador? Naturalmente, negociar com os BRICS não significa deixar de negociar com os Estados Unidos ou com a União Europeia. Mas será que vale a pena adotar um alinhamento ideológico com uma única potência dominante, correndo o risco de gerar dependência econômica e limitar outras opções de comércio exterior? A balança comercial de Minas é superavitária tanto com a China quanto com os EUA. Porém, a China é, de longe, a maior parceira comercial do estado — e, diferentemente dos EUA, não impõe ao setor produtivo mineiro as mesmas restrições e tarifas que têm surgido sob a gestão Trump.
SAIR DO BRICS É BOM PARA MINAS? V
Zema é pré-candidato à Presidência. Sabe que Bolsonaro está inelegível e deseja ser o nome apoiado pelo ex-presidente. Para isso, precisa radicalizar seu discurso em direção à extrema-direita e adotar pautas caras ao bolsonarismo, como a crítica ao comércio multilateral. No entanto, ele ainda é governador de Minas Gerais — e depende dos votos dos mineiros para ganhar projeção nacional. É importante que acompanhemos os próximos capítulos para ver se Zema apresentará dados específicos mostrando como um eventual afastamento dos BRICS poderia ser benéfico não apenas para o Brasil, mas, principalmente, para Minas Gerais — o estado que ele governa.
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