É comum me perguntarem qual a história mais bonita que conheço. Difícil responder. De histórias feias estou cheio: é só ir contando o que costuma acontecer comigo e com os outros. “ No quintal do meu Avô” considero sim, ser uma das mais lindas histórias que já escrevi e contei. Fala do meu avô materno Manoel Jovino Filho em São Romão. Lembrar minha infância na Fazenda de Noca, em São Francisco, e escrever sobre ela me fascina. É voltar a ser criança. É voltar a sonhar.
Das histórias bonitas que conheço, algumas têm fundo religioso. A parábola do filho pródigo é linda, foi a primeira peça de teatro que encenei na Escola Polivalente em 1977, assim como a história de José e seus irmãos. Outra linda história também já contei aqui a de Terezinha Macedo Borém ( inmemoriam) que lavava as feridas abertas das velhinhas do Asilo São Vicente de Paulo nos idos da década de 70. Relatei esta linda história aqui no Jornal de Notícias. Mas quando pedem um conto bonito, bonito mesmo, lembro sempre a freirinha que era porteira de um convento na Espanha, história esta contada em uma homilia pelo nosso saudoso Pe. Aderbal Murta. Homilia de 08 minutos na Igreja São Norberto.
Muito jovem, ela foi seduzida por um nobre que todos dias passava pelo convento, aparentemente para trazer esmolas. No fundo, para seduzir aquela moça que dedicara sua juventude e beleza ao serviço de Deus.
A freira decidiu fugir. Antes, passou na capela, onde havia uma imagem de Maria diante da qual ela sempre rezava. Colocou as chaves aos pés da Virgem e fugiu.
Anos depois, abandonada pelo sedutor, ela pensou em voltar ao convento. Bateu à porta – que estava aberta. Foi entrando e ficou admirada porque ninguém lhe fazia perguntas (misericórdia), era como se nunca tivesse fugido, como se todos os dias ela continuasse a abrir e a fechar as portas- todas as portas do monastério.
Metade deslumbrada, metade apavorada, ela foi à capela. Ajoelhou-se diante da linda imagem de Maria, talvez nem mais soubesse rezar, mesmo assim rezou com o que sabia: com a amargura de sua derrota. De repente, viu que alguma coisa brilhava sob o manto azul da Virgem. Eram as suas chaves.
Ela nem mais se lembrava que as havia deixado ali, no momento da fuga. Tampouco pedira qualquer coisa, apenas fugira, não tivera coragem para entregar as chaves à superiora.
E durante anos ninguém dera por sua falta. Todas as manhãs as portas eram abertas, todas as noites as portas eram fechadas. Alguém tomara o seu lugar. Alguém lhe devolveu a capacidade de acreditar nela mesma. E de se sentir útil.
Gustavo Mameluque. Jornalista. Correspondente do L’ Oservatore Romano para o Brasil. Colaborador do Novo Jornal de Notícias. Colunista da Revista tempo-montes claros.
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