DECEMBER 9, 2022

coluna Gustavo Mameluque: Pai, me ajuda olhar

Tenho certeza de que se meu pai Pedro Mameluque Mota tivesse me acompanhado nesta jornada carioca iria repetir a mesma frase de Galeano: “ Pai… me ajuda olhar!!!!

Era janeiro de 1972, pleno verão no Brasil, e o primo do meu pai, Edson, que residia na cidade do Rio de Janeiro, chegou a São Francisco-MG, para adquirir e regularizar uma fazenda próximo à Serra das Araras. Acontece que parte da documentação recebida pelo Cartório de São Francisco ele havia esquecido na sua casa nas “ Laranjeiras”, na cidade do Rio. Na época o primo Edson pleiteava um empréstimo rural junto ao Banco do Brasil e precisava muito regularizar esta segunda fazenda contígua a que ele já possuía para expandir os seus empreendimentos rurais. Diante da urgência não havia outra saída: Retornar com o motorista, em uma Brasília vermelha, para buscar os documentos esquecidos.

Era uma quarta feira no café da manhã, e ficou decidido que ele, junto com o motorista, voltariam ao Rio para buscar os documentos esquecidos. Sem “ querer querendo” ouvi a conversa do primo com meu pai e arrisquei: “ Tinha muita vontade de conhecer o mar… No Rio de Janeiro tem mar, não tem?”. Ao que o primo Edson, de plano, sem titubear, respondeu a todos: “ Vamos Guto, buscar os documentos e conhecer o mar”. Pedro sinalizou positivamente com a cabeça e Glorinha soltou o clássico: “ vamos ver e mais tarde a gente decide”. Só que o “ mais tarde” era na hora da muqueca de surubim, que seria servida às 13:00 hs. Imediatamente corri para o meu quarto, arrumei uma sacola ( naquela época não existia mochila) e para minha surpresa Glorinha apareceu com algumas peças de roupa nas mãos e  com um agasalho de frio. Pensei : “ A viagem deu certo! Vou conhecer o mar”.

Saímos de São Francisco naquele dia, estrada de terra, e dormimos no Hotel São José em Montes Claros para prosseguir viagem no dia seguinte. Em Paraopeba conheci o meu primeiro PF ( Prato feito) e em Barbacena a minha primeira RF ( Refeição). A refeição era mais sortida e serviam umas cumbucas com arroz, feijão, macarrão, salada, e dois tipos de carnes. Fiquei maravilhado com aquela novidade. Chegamos ao Rio na manhã de sábado e o primo Edson combinou com o motorista o retorno a São Francisco para terça-feira subsequente para que “ o filho do primo Pedro” pudesse conhecer o Mar no Domingo e na segunda feira.

O primo Edson havia comprado um lote de terreno na nascente “ Barra da Tijuca/ Jacarepaguá”. E já havia iniciado a fundação do que seria a sua futura residência que visitamos ( toda a família) em 1975 no fusca azul. Finalmente, em um domingo ensolarado de verão, partimos do Bairro de Laranjeiras , pelo viaduto do Joá, para conhecer o mar na “ Barra da Tijuca”. Sentado atrás, na janelinha da Brasília, comecei a enxergar a imensidão do mar da cidade do Rio de Janeiro. Um azul jamais visto por meus olhos acostumados com as águas lamacentas e escuras do Rio São Francisco que conhecia. Um azul infinito e distante. Que se confundia com o azul do céu. Ao descermos rente a praia da Barra retirei a camiseta e pisei na areia branca, já quente, que parecia me esperar. O primo Edson me disse : “ Vai lá Guto… vai conhecer o mar. Estarei próximo. Cuidado. Não ande muito depois da “ quebra da onda”. “ Você sabe nadar? Respondi: Aprendi a nadar na Fazenda de Noca, no riacho “ boi morto”, bem pertinhode São Francisco. Sei nadar “ cachorrinho” e braçada. E sei mergulhar também. Com os óis aberto”.

O que ele retrucou: Mas esta água é salgada. Você tem que mergulhar de olho fechado. Foi um dos dias mais felizes e gloriosos da minha vida. Um catrumaninho de Pirapora, dentuço, orelhudo, esquelético, barranqueiro e curioso pisando, em fim, no Mar. No mar tão esperado e desejado. Termino parafraseando o escritor uruguaio Eduardo Galeano que, quando avistou o mar de Montevidéu, pela primeira vez, exclamou ao lado do seu Pai: “ Pai… me ajuda olhar esta imensidão !!!”

Tenho certeza de que se meu pai Pedro Mameluque Mota tivesse me acompanhado nesta jornada carioca iria repetir a mesma frase de Galeano: “ Pai… me ajuda olhar!!!!

Gustavo Mameluque – Jornalista- Barranqueiro e Catrumano. Colaborador do Jornal de Notícias e da Revista Tempo.

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