Os nossos índios tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar o seu arabutan (Pau-Brasil). Uma vez um velho perguntou-me: Por que vindes vós outros, maírs e pêros (franceses e portugueses) buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas.
Retrucou o velho imediatamente: e porventura precisais de muito? — Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados. — Ah! retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: Mas esse homem tão rico de que me falas não morre? — Sim, disse eu, morre como os outros.
Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: e quando morrem para quem fica o que deixam? — Para seus filhos se os têm, respondi; na falta destes para os irmãos ou parentes mais próximos.
— Na verdade, continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo, agora vejo que vós outros maírs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados”.
Fonte: Trecho do Livro “Viagem à Terra do Brasil” de Jean de Léry, escrito entre os anos de 1556-1558, traduzido para o português por Tristão de Alencar Araripe, em 1889, p. 134-135
Nunca é tarde para nos lembrarmos que os verdadeiros donos destas terras que habitamos são os índios que aqui viviam de todas as etnias e raças. Os invasores foram os portugueses, os trazidos à força foram os negros.
Portanto, genuinamente somos uma mistura de brancos, índios e negros. Como muito bem nos explica Darcy na sua obra “ O povo brasileiro”. E disto devemos muito nos orgulhar. Mas jamais nos orgulhamos do tráfico negreiro e da perseguição implacável aos povos indígenas da época do descobrimento e colonização. E jamais nos esquecermos dos Anaiós que sucumbiram nas barrancas do São Francisco , próximo à Pintópolis (hoje).
Neste momento de pesar nos solidarizamos com os parentes do Grande Prefeito de Montes Claros Dr. Humberto Souto. Deixa-nos com certeza uma grande legado de trabalho, honestidade e seriedade. Que os seus ideais e a sua determinação permaneçam por muito mais tempo nas terras de Figueira. Com certeza está , de braços dados com Tuninho Rebelo, velando por nossa Montes Claros !!!!
Gustavo Mameluque. Jornalista. Especialista em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro. Articulista do Jornal de Notícias e da Revista on line Tempo.
Blog mameluquegustavo@blogspot.com
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