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Casamento sem sexo é comum na geração que está entre 30 e 40 anos

Devido ao estresse e à pornografia, millennials tem frequência mais baixa na cama do que idosos acima dos 60 anos.

Foto: Yacobchuk / iStockphoto

É difícil imaginar um casamento sem sexo, com duas pessoas dividindo a mesma cama e sem qualquer intimidade. Mas ele não só existe, como também vem se transformando num fenômeno comum. A principal explicação para isso tem nome: millennials, a geração Y, nascida entre o início dos anos 1980 e a década seguinte e que viveu a transição tecnológica com a chegada da internet e seus desdobramentos na vida social e profissional.

“É a geração que mais vive um casamento sem sexo”, garante Bárbara Vilela, psiquiatra e psicoterapeuta, sócia-diretora da Clínica Mangabeiras, em Belo Horizonte. Ela já percebe no consultório uma mudança acentuada de perfil dos pacientes que vão em busca de solução para o problema da falta de contato social sexual, definido como “casamento branco” – a cor é referência ao francês “blanc”, que também significa “vazio”.

Bárbara salienta que são várias as razões para essa baixa frequência debaixo dos lençóis entre os millenials – a principal delas é o fato de ser uma geração workaholic. Em demasia. “Ela é muito focada no trabalho, inserindo-se nesse mercado num momento de crise, pegando a pandemia, e que agora está muito preocupada em ter a casa própria e alcançar outros objetivos pessoais”, explica a psicoterapeuta.

Ela lembra que, nessa mesma faixa etária, entre os 30 e 40 anos, os pais desse público já tinham conquistado a maior parte de seus objetivos de vida. “Tem aí um estresse financeiro e profissional. É uma geração também em que a maioria está com filho pequeno, que também é algo que atrapalha bastante a vida sexual”, analisa Bárbara.

As redes sociais também têm sua parcela de culpa no casamento branco, ao propagandear um ideal de vida perfeita e corpo sarado. “Isso acaba gerando uma comparação, com as pessoas ficando mais insatisfeitas com o próprio corpo. Para as mulheres, isso faz muita diferença quando se trata de vida sexual. Não se sentir confortável com o próprio corpo diminui o desejo sexual”, assinala.

Se alguém imagina que, para ser considerada uma relação sem intimidade, a quantidade de transas tem que ser zero, está enganado. Embora não haja consenso sobre números, Bárbara observa que “não precisa ser um casamento 100% sem sexo, podendo ser com uma frequência muito baixa”. Alguns estudiosos dizem que, para se encaixar nessa definição, a quantidade de conjunções carnais deve tem que de ser uma vez a cada três ou mais meses. Outros estipulam em 12 vezes ao ano.

“O que vai definir se é um problema ou não é o fato de um dos dois ou ambos estarem insatisfeitos. Se a frequência for baixa e o casal estiver satisfeito, percebendo que ali há momentos românticos mesmo sem sexo, tudo bem”, pondera. O mais comum, segundo ela, é os dois estarem se questionando sobre o futuro da relação. Nesse momento entra em cena o terapeuta de casais para ajudar num desfecho, que pode ser a separação.

Para os sexólogos ou psicólogos, o casamento branco se tornou um desafio, já que, tempos atrás, quem buscava ajuda eram casais com mais de 50 anos que estavam parando de ter vida sexual devido à menopausa, à andropausa ou a outros tipos de problemas de saúde. “Agora já é um pessoal mais novo, com outras questões. Hoje, os idosos com mais de 60 anos têm uma vida sexual mais ativa do que os casais de 30, 40 anos”.

Quando os parceiros chegam ao consultório, a psicoterapeuta tem, como primeiro passo, buscar uma solução. “Temos que ver primeiramente se é um problema ou não para o casal. Eu já atendi vários deles que me relataram isso em algum momento, não sendo a queixa principal deles, mas que não veem problema em continuar dessa forma, sem fazer sexo. Mas, quando é um problema, temos que ver de onde ele está surgindo”, afirma.

Intimidade sob os lençóis exige tempo e qualidade 

Entre as principais origens está, por exemplo, a falta de tempo de qualidade, principalmente se for um casal que passa mais fora do que dentro de casa, devido ao trabalho. “Quando chega o final do dia, eles já estão exaustos, e nenhum dos dois quer saber disso. Então tentamos investir nesse tempo de qualidade, em que estará sozinho e dedicará energia e tempo para aquilo ali”, detalha Bárbara.

Se à noite ninguém quer saber de carinhos, qual seria o melhor horário para se estabelecer essa intimidade? Essa pergunta é que deve ser feita para o casal. Outra coisa é perceber se há algo ruim no próprio ato sexual, tornando-o desinteressante. “Se é uma relação muito longa, não tem mais aquela novidade. Aí é preciso buscar, para torná-la interessante de novo”.

A pornografia em exagero também atrapalha. “Acontece de uma ou as duas pessoas da relação só conseguirem excitação se tiver pornografia envolvida. Nesses casos, não acontece muita coisa entre eles”, pontua. Ela recorda que, até há bem pouco tempo, o que existia de pornografia eram revistas, “que dependiam da imaginação”, e filmes eróticos com história, que “não eram tão explícitos (ou concluídos) rapidamente”.

Atualmente o que é disponibilizado nos sites são vídeos de até cinco minutos e totalmente fora da realidade. “As pessoas que os consomem passam a ficar acostumadas com um estímulo muito rápido e intenso. E quando você vai comparar com a vida sexual de um casamento de 10, 15 anos, é difícil. Por isso é que dizemos a pornografia interfere muito mais agora do que antigamente”, contrasta.

Muito se fala da importância do sexo para a saúde do corpo e da mente, mas Bárbara Vilela avisa que, em tese, não se pode estender isso a todas as pessoas. “Tem muita gente que decide viver sem isso ou que se considera assexuada, e está tudo bem. Mas, claro, a gente sabe que o sexo libera endorfina e dopamina, trazendo diversos benefícios, parecidos com o que a gente vê na atividade física. O orgasmo diminui o nível de estresse do dia a dia”.

Ela ressalta também que o casal que não tem uma boa interação entre quatro paredes acaba se distanciando, do ponto de vista emocional. Esse afastamento acontece, de acordo com a psicóloga, mais em função de uma cultura do que de uma insatisfação. “Eles chegam aqui não querendo que o casamento acabe, mas que, sem vida sexual, imaginam que vai acabar. O que falo é que, se você não quiser, a relação não vai acabar por isso”.

Bárbara conta que, em alguns casos, os parceiros estão pensando mais no futuro do que no presente. “Como acham que não é possível continuar sem sexo, preferem terminar enquanto são jovens e mudam o relacionamento. Só que o problema continua. Às vezes são outros fatores que estão impactando”, registra. A boa notícia é que, na maioria das vezes, os casais se entendem e preferem não se divorciar. Mas, claro, tudo isso com um acompanhamento profissional.

revistatempo@tempo.com.br

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