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	<title>vício &#8211; Revista Tempo</title>
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	<description>A melhor revista de Montes Claros</description>
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	<title>vício &#8211; Revista Tempo</title>
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		<title>SAÚDE MENTAL EM JOGO</title>
		<link>https://revistatempo.com.br/2025/09/14/saude-mental-em-jogo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dihemeson]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Sep 2025 22:54:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[apostas]]></category>
		<category><![CDATA[Psicólogo]]></category>
		<category><![CDATA[psiquiatria]]></category>
		<category><![CDATA[sites de aposta]]></category>
		<category><![CDATA[vício]]></category>
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					<description><![CDATA[O vício em jogos de apostas marcou para sempre a vida de Sofia e escancara como a dependência pode comprometer a vida e o desenvolvimento psíquico de adolescentes e jovens]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em><b>Dihemeson Faria</b><b><br />
</b><b>Verônica Pacheco<br />
</b><b></b>Repórteres</em></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sofia (nome fictício), 21 anos, viciada em apostas online desde os 16. A menina simples, do interior de Minas Gerais, foi encantada pelas promessas de dinheiro rápido e fácil feitas por uma influenciadora pelo Instagram. Na tela, o jogo bobo, de aparência colorida e inofensiva, reduzia a resistência e atraía a atenção, principalmente, de adolescentes que, como ela, fazem parte da geração Z, os nativos digitais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A exposição infanto-juvenil às chamadas bets (casas de apostas) foi intensificada no período da pandemia de Covid-19, quando o tempo de tela aumentou pela restrição de interações fora de casa. Os desenvolvedores das plataformas como as dos caça-níqueis de celular, como o Jogo do Tigrinho, utilizaram os mecanismos e truques digitais da gamificação para atrair e reter um público cada vez mais jovem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As cores, sons e efeitos são usados para provocar excitação e urgência, criando uma sobrecarga sensorial para tornar a experiência mais imersiva e viciante, o que aumenta o potencial de dependência, explica o desenvolvedor de jogos Sabbir Hossain, da Universidade de Daca, em Bangladesh. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O universo dos jogos eletrônicos preparou e estimulou a migração de menores de idade para os jogos de apostas. O interesse foi impulsionado por influenciadores que produziam outros tipos de conteúdo online e já possuíam grande número de seguidores. Procurados por casas de apostas estrangeiras e ilegais por valores que chegavam a R$100 mil por mês, eles tinham os próprios links de compartilhamento dos jogos para permitir o controle do número de novos apostadores que traziam para as bets e definir as comissões recebidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi assim que Sofia começou a apostar, por meio de um link repassado pela influenciadora Maria Karollyny Campos Ferreira, a “Karol Digital”. Quando essa reportagem começou a ser feita, ela ainda não havia sido </span>presa em ação coordenada pela 1ª Divisão de Repressão ao Crime Organizado (DEIC- Palmas), em Tocantins.</p>
<p>Karol Digital foi indiciada por exploração de jogo de azar, associação criminosa, lavagem de dinheiro e crime contra a economia popular. As investigações continuam para apurar o envolvimento de terceiros e possíveis crimes como corrupção e tráfico de influência. Segundo o Delegado-chefe do DEIC, Wanderson Chaves de Queiroz,  com a notoriedade do caso, várias outras denúncias chegaram. &#8220;Todas serão devidamente apuradas&#8221;, informa.</p>
<hr />
<p style="padding-left: 40px;"><em><strong>&#8220;A credibilidade que muitos influenciadores digitais constroem nas redes sociais atua como um verdadeiro escudo para encobrir práticas ilícitas e também para manipular a percepção do público, em sua maioria jovens influenciados pelo glamour e ostentação de mansões, carros e itens de luxo. </strong></em></p>
<p style="padding-left: 40px;"><em><strong>Assim, quando um influenciador com milhões de seguidores recomenda um site de apostas ilegais, uma plataforma de investimento fraudulenta ou qualquer outra atividade criminosa disfarçada, ele empresta sua imagem e confiança a um esquema que, por si só, já é estruturado para enganar. </strong></em></p>
<p style="padding-left: 40px;"><em><strong>Muitos desses seguidores, não raro emocionalmente vulneráveis, não enxergam o risco real a que estão sendo expostos porque confiam cegamente naquela figura pública.</strong></em></p>
<p style="padding-left: 40px;"><em><strong>É o mesmo mecanismo psicológico que há anos é explorado em golpes de estelionato: o criminoso se apresenta como alguém confiável para facilitar o convencimento da vítima e assim a atrai para o erro e para a enganação. </strong></em></p>
<p style="padding-left: 40px;"><em><strong>Como se não bastasse, o problema se agrava mais porque no ambiente digital o ardil utilizado acontece em escala massiva&#8221;, esclarece Wanderson de Queiroz.</strong></em></p>
<hr />
<div id="attachment_52474" class="wp-caption aligncenter" ><a href="https://revistatempo.com.br/2025/09/14/saude-mental-em-jogo/1_189_20181101150754/" rel="attachment wp-att-52474"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-52474" src="https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/1_189_20181101150754.jpeg" alt="" width="498" height="228" /></a><p class="wp-caption-text">O Delegado-chefe da Deic-Palmas, Wanderson Queiroz, diz que  possível que a influência digital impacta diretamente na cultura e na percepção do crime.&#8221;Percebemos uma tentativa de normalização de condutas criminosas, especialmente no ambiente virtual, onde a fiscalização ainda enfrenta desafios tecnológicos e legais&#8221;. <strong>Foto:</strong> Arquivo Pessoal</p></div>
<hr />
<blockquote><p>&#8220;<strong><em>A influência digital impacta diretamente na cultura e na percepção do crime, de forma que percebemos uma tentativa de normalização de condutas criminosas, especialmente no ambiente virtual, onde a fiscalização ainda enfrenta desafios tecnológicos e legais.</em></strong></p>
<p><strong><em>Nesse cenário, influenciadores criminosos, com grande alcance e aparente legitimidade, passaram a desempenhar um papel central na disseminação de atividades ilícitas, como jogos de azar ilegais e fraudes financeiras. </em></strong></p>
<p><strong><em>Contudo, merece destacar que a internet mudou a forma como os crimes são cometidos, mas a essência criminosa permanece a mesma: enganar, obter vantagem ilícita e explorar a boa-fé alheia e todos aqueles que participarem direta ou indiretamente da engrenagem criminosa serão tratados como autores, coautores ou partícipes, conforme prevê a legislação penal&#8221;</em></strong></p>
<hr />
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<div id="attachment_52379" class="wp-caption aligncenter" ><a href="https://revistatempo.com.br/2025/09/14/saude-mental-em-jogo/karol-digital/" rel="attachment wp-att-52379"><img decoding="async" class="wp-image-52379 " src="https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/KAROL-DIGITAL.webp" alt="" width="474" height="316" /></a><p class="wp-caption-text"><span style="color: #333333;"><em><span style="font-weight: 400;">“Eu não tinha nada, hoje eu quero o mundo”, escreveu Karol Digital em seu perfil. Com uma narrativa que prometia </span>riqueza e status instantâneo por meio de jogos de apostas, a influenciadora atraiu milhares de jovens para as bets. <strong>Foto:</strong> Reprodução Redes Sociais</em></span></p></div>
<blockquote>
<hr />
<p><span style="font-weight: 400;">As fotos do Instagram exibem barcos, viagens e bens de luxo, universo que seduziu mais de 1,5 milhão de seguidores interessados na rápida evolução patrimonial da jovem que, em cinco anos, movimentou cerca de R$ 217 milhões.</span></p>
<p>A menina pobre do interior, sem muitas perspectivas e com um filho a caminho, acreditou na chance de mudar de vida com as dicas da infuenciadora. Começou comprando um curso de vendas de peças artesanais de Karol Digital e acabou seduzida pela possibilidade de vencer pela sorte no Jogo do Tigrinho.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Eu via ela (<em>sic</em>) mostrando tudo nas redes sociais e sempre falando que qualquer pessoa poderia conseguir. Eu comecei a acreditar que talvez aquele pudesse ser o meu caminho”, conta Sofia.</span> <span style="font-weight: 400;">“Me chamou a atenção porque ela sempre colocava os prints dos valores que ganhava. O que mais me interessou foi quando ela conseguiu comprar um iPhone</span><span style="font-weight: 400;"> 14 Pro Max,</span><span style="font-weight: 400;"> que na época era bem caro mesmo. E ela conseguiu com o dinheiro dos jogos”, supõe a jovem.</span></p>
<p>Sofia contou que apostou os R$ 300 que tinha na época e chegou a ganhar R$14 mil. Mas para realizar o saque do valor recebido, era necessário depositar cada vez mais. Todo o ganho acaba sendo reinvestido no jogo. Com o tempo, as perdas acumuladas e a condição de vulnerabilidade e dependência do jogo, a jovem percebeu que tudo não passa de uma fraude.</p></blockquote>
<hr />
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;"><strong><em>“É uma conta que o próprio dono da plataforma dá pra eles, que já vem com dinheiro, mas não é dinheiro de verdade. É uma conta que eles vão jogar e só vão ganhar. É ali que eles fazem os vídeos para poder postar no Instagram. Por isso que todo mundo vê que blogueiro nenhum perde dinheiro no ‘Tigre’. Eles não jogam em uma conta de verdade, com dinheiro real. É dinheiro de mentira em uma conta de mentira. Todas as bets seguem ali a mesma lógica de uma pirâmide. No topo estão os donos da plataforma, abaixo deles os influenciadores, depois uma mínima porcentagem que ganha e, na base, os 90% que entram e perdem muito dinheiro”</em></strong>, denuncia Sofia.</span></p>
<hr />
<p style="text-align: left;">Quando começou a jogar, ela não imaginava que a dependência nas apostas tiraria muito mais do que aparentava oferecer. A relação com o jogo ficou progressivamente mais perigosa: rotinas marcadas por madrugadas diante da tela, dívidas crescentes e ilusão de conquistas que custaram tempo, afeto e saúde.</p>
<p style="text-align: left;">A jovem pegou dinheiro com agiotas; vendeu bens pessoais; usou escondido o cartão da mãe para tentar recuperar perdas. Quando não tinha dinheiro, gastava horas revendo partidas gravadas tentando encontrar um “jeito” de vencer mas, no fim, o Tigrinho sempre vencia.</p>
</blockquote>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Eu decidi pedir ajuda porque chegou a um ponto em que eu estava prejudicando minha própria família com esse vício. Minha mãe me convenceu de que eu precisava disso; foi difícil aceitar, eu fiquei relutante no início”, diz Sofia.</span></p></blockquote>
<div id="attachment_52375" class="wp-caption aligncenter" ><a href="https://revistatempo.com.br/2025/09/14/saude-mental-em-jogo/foto-divulgacao-2/" rel="attachment wp-att-52375"><img decoding="async" class="wp-image-52375 " src="https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/FOTO-DIVULGACAO.png" alt="" width="496" height="279" srcset="https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/FOTO-DIVULGACAO.png 900w, https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/FOTO-DIVULGACAO-768x432.png 768w" sizes="(max-width: 496px) 100vw, 496px" /></a><p class="wp-caption-text">O jogo de aparência inofensiva que marcou a entrada de Sofia no universo das apostas online e deu início à sua trajetória de dependência. <strong>Foto:</strong> Divulgação</p></div>
<hr />
<p><b>MECANISMOS SOCIAS E NEUROBIOLÓGICOS</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A experiência de Sofia não é isolada. Muitos jovens acreditam em narrativas de sucesso rápido justamente porque ainda não conseguem dimensionar riscos. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, divulgados pela Agência Brasil, apontam que<strong> jovens de 14 a 17 anos</strong> têm acessado sites ilegais de apostas e compõem o grupo mais vulnerável:<strong> 55%</strong> deles já apresentam algum grau de risco ou transtorno associado ao vício em jogos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Eu tinha muita ansiedade, não conseguia dormir muito à noite, minha cabeça ficava focada só em jogar mais e mais”, conta Sofia.</span></p>
<p>Os números confirmam a dimensão do problema. Entre 2021 e 2024, os procedimentos ambulatoriais ligados ao transtorno do jogo triplicaram no Sistema Único de Saúde (SUS), passando de 413 para 1.265 atendimentos.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse aumento acompanha a explosão do mercado de apostas digitais no Brasil e alerta para a necessidade de reconhecer a dependência em jogos não como uma questão de comportamento, mas sim como um problema de saúde pública.</span></p>
<p>A facilidade de acesso a esse tipo de conteúdo na privacidade do celular expõe adolescentes a riscos graves à sua saúde psíquica. A combinação de reforço social (likes, comentários) e sistema de recompensa dos jogos cria um circuito potente de busca por ganho imediato. A psicoterapeuta e neuropsicóloga Rosane Queiroz, especialista em crianças e adolescentes, explica que, nessa fase, o cérebro ainda está em desenvolvimento, especialmente as áreas relacionadas ao planejamento, tomada de decisão e avaliação de riscos, o que dificulta prever consequências de ações online.</p>
<p><b>SOB INFLUÊNCIA</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antigamente, quando os pais queriam afastar os filhos de má-influência era comum orientar que evitassem determinadas companhias. Com as redes sociais, milhares de produtores de conteúdo do mundo todo influenciam crianças e adolescentes no You Tube, Snapchat, Tik Tok, Instagram &#8211; só para citar as maiores plataformas &#8211; quanto ao que comem, vestem, fazem e pensam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De acordo </span><span style="font-weight: 400;">com a pesquisa “Brasil e os Influenciadores Digitais”, realizada pelo IBOPE, em 2019, </span><a href="https://static.poder360.com.br/2019/11/Influenciadores-digitais-ibope.pdf"><span style="font-weight: 400;"><span style="color: #ff0000;"><strong>52% dos internautas brasileiros seguem algum tipo de influencer</strong></span>.</span></a><span style="font-weight: 400;"> Dados de uma pesquisa realizada em seis países, divulgada em 2025, pelo </span><span style="color: #ff0000;"><strong><a style="color: #ff0000;" href="https://www.statista.com/topics/2496/influence-marketing/#topicOverview">portal Statista</a></strong></span><span style="font-weight: 400;">, revelam o poder deste mercado no país: quase <strong>90% dos consumidores brasileiros</strong> disseram confiar nas recomendações de influenciadores, em comparação com aproximadamente 70% na França. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O processo de identificação é ainda maior no público adolescente que está em busca de pertencimento e ainda em processo de formação de sua personalidade. </span><span style="font-weight: 400;">O psiquiatra Dartiu Xavier, coordenador do <strong><span style="color: #ff0000;"><a style="color: #ff0000;" href="https://pbpd.org.br/membro/programa-de-orientacao-e-atendimento-a-dependentes-da-universidade-federal-de-sao-paulo-proad-unifesp/">Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes</a></span></strong> da Unifesp, diz que o poder dos influenciadores agrava o problema: “Eles contam histórias fantasiosas, são pessoas idealizadas”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ele explica outro fator associado à idade dos jovens apostadores. “Outra coisa que influencia é o imediatismo: isso é muito da adrenalina, da dopamina. Um jogo por exemplo, com sorteios semanais, ele pensa “ah só tem sábado” isso não inunda o corpo de dopamina. O que faz isso é aquilo que é vivido no momento,esse imediatismo”, alerta o médico.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os pesquisadores da Universidade de Viena Elena Engel, Sascha Gell, Raffael Heiss e Kathrin Karsay publicaram o artigo </span><i><span style="font-weight: 400;">“Influenciadores de mídias sociais e a saúde de adolescentes: uma revisão de escopo do campo de pesquisa”</span></i><span style="font-weight: 400;">, na revista </span><span style="color: #ff0000;"><strong><a style="color: #ff0000;" href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38039770/"><i>Social Science &amp; Medicine</i></a></strong></span><span style="font-weight: 400;">. Eles analisaram 51 artigos científicos publicados entre 2012-2022 sobre o assunto. </span></p>
<hr />
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;"><strong><em>“A capacidade dos influenciadores de mídias sociais de estabelecer relações de confiança com seus seguidores foi destacada nos estudos revisados, evidenciando benefícios e desafios potenciais para a saúde dos adolescentes. Entretanto, a maioria dos estudos focou nos papéis negativos dos influenciadores, tais como a promoção de imagens corporais irreais, dietas não saudáveis, uso de substâncias e aconselhamento diagnóstico e terapêutico impreciso, promoção de padrões irreais de beleza, dietas não saudáveis, incentivo ao consumo de substâncias e fornecimento de conselhos de saúde imprecisos ou sem base científica”,</em></strong> atesta a publicação.</span></p>
</blockquote>
<hr />
<p style="text-align: left;">A construção dessa relação de confiança ganha ainda mais peso quando se observa a dimensão das redes sociais no Brasil. O país é um dos maiores mercados digitais do mundo, com números que revelam o tamanho da exposição de adolescentes a esses conteúdos. A presença digital no Brasil tem dados impressionantes, com mais de 141 milhões de usuários. Segundo a Data Reportal 2025, 79,5% dos pesquisados com mais de 13 anos usavam o Instagram.</p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Pós-doutora em Dependência Digital, a psiquiatra </span><span style="color: #ff0000;"><strong><a style="color: #ff0000;" href="https://propsam.ipub.ufrj.br/anna-lucia-spear-king/">Anna Lucia Spear King</a></strong></span><span style="font-weight: 400;">, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, criou o “Instituto Delete” para ajudar pessoas com a saúde mental impactada pelo mundo digital. “Existe uma diferença entre a dependência normal da tecnologia, que temos por lazer ou trabalho, mesmo que configure um uso excessivo, e a nomofobia, que é a dependência patológica da tecnologia e exige tratamento psicológico e psiquiátrico”, explica a médica.</span></p>
<p><b>DIAGNÓSTICO E CLASSIFICAÇÃO CLÍNICA</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que Sofia viveu é reconhecido pela </span><span style="color: #ff0000;"><strong><a style="color: #ff0000;" href="https://www.who.int/health-topics/addictive-behaviour#tab=tab_1">Organização Mundial da Saúde (OMS)</a></strong></span><span style="font-weight: 400;"> como Transtorno do Jogo, um quadro que faz parte da 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), publicada em 2022. Nesse documento, a dependência em jogos aparece na categoria de “transtornos por comportamento aditivo”, junto de quadros semelhantes à dependência de álcool e drogas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O diagnóstico é aplicado quando o comportamento se torna persistente, descontrolado e gera prejuízos claros em áreas como escola, trabalho, relacionamentos ou saúde mental. A OMS distingue ainda duas formas principais de manifestação, sendo o </span><b><i>Gaming Disorder</i></b> <span style="font-weight: 400;">ligado ao uso excessivo de videogames, e o </span><b><i>Gambling Disorder</i></b><span style="font-weight: 400;"> relacionado às apostas de dinheiro, como cassinos, bingos ou plataformas digitais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora diferentes em suas mecânicas, ambos têm em comum a ativação dos circuitos cerebrais de recompensa e compulsão, o que explica a dificuldade de interromper o comportamento mesmo diante de consequências negativas. No Brasil, embora o país ainda utilize oficialmente a CID-10, a transição para a CID-11 está prevista para 2027. </span></p>
<div id="attachment_52374" class="wp-caption aligncenter" ><a href="https://revistatempo.com.br/?attachment_id=52374" rel="attachment wp-att-52376"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-52374 " src="https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/FOTO-DIVULGACAO-01.webp" alt="" width="465" height="262" srcset="https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/FOTO-DIVULGACAO-01.webp 1280w, https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/FOTO-DIVULGACAO-01-768x432.webp 768w" sizes="auto, (max-width: 465px) 100vw, 465px" /></a><p class="wp-caption-text">Cores, sons e recompensas imediatas: mecânicas de gamificação tornam os caça-níqueis de celular altamente viciantes. <strong>Foto:</strong> Divulgação.</p></div>
<hr />
<p>Na prática, muitos ambulatórios especializados já aplicam os critérios mais modernos, justamente porque eles permitem compreender melhor situações como a de Sofia, em que jogos e apostas se misturam. “Há uma similaridade grande com dependência química, incluindo perda de controle, incapacidade de abrir mão de outras atividades e prioridade excessiva do comportamento sobre responsabilidades sociais e pessoais”, explica o psiquiatra Dartiu Xavier, professor da Unifesp.</p>
<p>Aos 21 anos e mãe de dois filhos, Sofia conta que foram eles sua principal motivação para romper com o vício: apagou senhas, encerrou acessos e, em 21 de novembro de 2024, deixou as apostas para trás. Desde então, vem reconstruindo a vida gradualmente, mas admite que enfrentar e sustentar essa decisão foi um desafio árduo.</p>
<p><span style="font-weight: 400;"> “Tive depressão após parar de jogar, eu me sentia muito mal e triste, não queria falar com ninguém, fiquei três meses da minha gestação sem sair de casa, passava o dia todo deitada, não queria comer, não tinha forças nem para cuidar do meu nenê direito, foi uma luta para conseguir sair disso. O que me deu forças para sair do lugar que eu me encontrava foram meus filhos”, conta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No fundo ela sabia que era pela abstinência do jogo. Sofia buscou apoio em sessões de terapia, retomou os estudos e voltou ao trabalho. Aos poucos, vem conseguindo quitar dívidas e recuperar a estabilidade perdida com o vício. Hoje, procura recuperar a confiança da família, passar mais tempo com as crianças, assistir filmes, estudar, encontrar amigas e restabelecer os laços que ficaram pelo caminho. Ainda assim, admite a dor pelo que não viveu.</span></p>
<p>&#8220;Foi a intervenção da minha família que me impediu de me afundar ainda mais, porque sozinha talvez eu ainda estivesse presa ao vício. Perdi muito do contato até com a minha mãe, mas aos poucos estou conseguindo recuperar essa relação, assim como com meus irmãos e amigos”, conta.</p>
<p><b>DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO</b></p>
<div id="attachment_52383" class="wp-caption aligncenter" ><a href="https://revistatempo.com.br/2025/09/14/saude-mental-em-jogo/dartiu-arquivo-pessoal/" rel="attachment wp-att-52383"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-52383 " src="https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/DARTIU-ARQUIVO-PESSOAL.jpeg" alt="" width="476" height="635" srcset="https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/DARTIU-ARQUIVO-PESSOAL.jpeg 959w, https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/DARTIU-ARQUIVO-PESSOAL-768x1025.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 476px) 100vw, 476px" /></a><p class="wp-caption-text">O psiquiatra Dartiu Xavier, da Unifesp, compara o vício em jogos às dependências químicas: “ativa os mesmos circuitos cerebrais de recompensa”.<b> Foto: </b>Arquivo Pessoal. <b><br /></b></p></div>
<hr />
<p><span style="font-weight: 400;">Para o psiquiatra Dartiu Xavier, tratar o transtorno do jogo exige olhar além do comportamento de aposta em si: “há subtipos diferentes e grande parte dos casos vem acompanhada de comorbidades que funcionam como gatilhos. Depressão, por exemplo, pode conviver com a falta de controle do jogo, em alguns pacientes, a excitação proporcionada pelas apostas chega até a devolver um falso ânimo, o que dificulta o tratamento se a depressão não for tratada em paralelo&#8221;, diz ele. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O mesmo vale para transtornos do humor: numa fase maníaca do transtorno bipolar, a atividade de jogo tende a escalar e só melhora se a comorbidade for adequadamente abordada. Xavier observa ainda que traços de personalidade especialmente perfis “tudo ou nada” e o abuso de álcool são comorbidades frequentes e relevantes clinicamente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, a estratégia terapêutica deve ser integradora: identificar e tratar comorbidades psiquiátricas e de uso de substâncias é condição necessária para que o paciente consiga controlar o impulso de jogar. No plano do manejo direto do comportamento, ele aponta duas frentes complementares. A primeira é farmacológica: “existem medicamentos que podem reduzir a compulsão e diminuir a impulsividade”, auxiliando o paciente a evitar ações imediatistas, alerta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A segunda é psicoterapêutica: trabalhos com foco na reestruturação cognitiva e na tolerância à frustração são essenciais porque muitos pacientes têm uma visão distorcida de ganhos e conquistas, expectativa de soluções mágicas e pouca capacidade de lidar com a espera. Técnicas comportamentais simples, de autorregulação (por exemplo, contar até dez antes de apostar), ajudam a reduzir o imediatismo e a construir estratégias para prevenir recaídas.</span></p>
<p style="text-align: left;"><b>PROTEÇÃO NO AMBIENTE DIGITAL</b></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Em abril do ano passado, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) publicou a Resolução nº 245/2024, que regulamenta a proteção de menores de idade no ambiente digital. O inciso I do artigo 22 prevê proteção específica contra práticas que favoreçam a dependência e o comprometimento da saúde mental por meio de jogos online. </span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">A norma responsabiliza as empresas provedoras, de forma preventiva e diligente, identificar, mensurar, avaliar e mitigar os riscos reais ou previsíveis aos direitos e ao interesse superior de crianças e adolescentes decorrentes da concepção, das funcionalidades, da gestão e do funcionamento de seus serviços e sistemas com atenção especial a impactos na saúde mental, como dependência, tempo excessivo de tela, prejuízos à autoestima e ao bem-estar físico e emocional. </span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">O documento apresentado por entidades de proteção à infância que integram o Conanda serviu de base para a minuta do Projeto de Lei 2628/22, de autoria do Senador Cleitinho (Republicanos/MG).</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">O chamado <strong>Estatuto Digital da Criança e do Adolescente</strong>, traz dispositivos específicos para restringir o acesso de menores de idade a apostas online. O texto aprovado proíbe a promoção e comercialização de jogos de azar, apostas de quota fixa e loterias para crianças e adolescentes, determinando que provedores de tecnologia adotem medidas técnicas desde o design até a operação das plataformas para impedir esse acesso.</span></p>
<p style="text-align: left;">Se, por um lado, o ECA Digital avança na criação de barreiras legais para proteger menores de idade, por outro, é preciso lembrar que a dependência em jogos já é reconhecida pela medicina como um transtorno específico. A legislação aponta responsabilidades externas, mas a saúde mental expõe os impactos internos quando o jogo deixa de ser lazer e passa a gerar prejuízos concretos sejam emocionais, sociais ou financeiros.</p>
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<p style="text-align: left;">Para identificar quando o ato de jogar deixa de ser um hábito recreativo e passa a caracterizar um transtorno o Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso da Universidade de São Paulo (USP) levantou aspectos comuns no diagnóstico segundo critérios clínicos (quadro).</p>
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<p><a href="https://revistatempo.com.br/2025/09/14/saude-mental-em-jogo/questionario/" rel="attachment wp-att-52409"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-52409" src="https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/questionario-scaled.png" alt="" width="1808" height="2560" srcset="https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/questionario-scaled.png 1808w, https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/questionario-768x1087.png 768w, https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/questionario-1085x1536.png 1085w, https://revistatempo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/questionario-1446x2048.png 1446w" sizes="auto, (max-width: 1808px) 100vw, 1808px" /></a></p>
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